1914-1918: a Primeira grande guerra ainda não terminou

Luiz Roberto Benatti.

Gavrilo Princip,  saltou de uma página de  Dostoiévski para Saravejo

Em 28 de junho de 1914, um mês antes da eclosão da Grande guerra, o arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria, sucessor do trono austro-húngaro, e a mulher Sofia foram alvejados à queima roupa em Saravejo por Gavrilo Princip, na verdade um dentre 6 assassinos (5 sérvios e 1 muçulmano bósnio), numa operação arriscada e cuidadosamente coordenada pelo coronel Danilo Ilic. O propósito era instalar a Grande Sérvia ou Iugoslávia. Outro coronel, Tankosic, armou os assassinos com bombas e pistolas e os treinou. Os 6 participantes foram presos, julgados e punidos, 3 dos quais executados. Intérpretes e historiadores entenderam que o episódio deu à guerra o disparo inicial. A acareação dos assassinos e seus instrutores infiltrados no exército sérvio resultou num dossiê cujos detalhes, rigorosamente anotados, deixarão boquiabertos os interessados no episódio: local de saída de tal localidade, transporte e abrigo de armas, casas em que pernoitaram, retorno, cujas preliminares para o atentado deram-se do seguinte modo: o arquiduque e a comitiva transportaram-se de trem de Ilidza Spa a Saravejo, para visitar feridos em hospital -, onde se distribuíram por 6 automóveis, exatamente o número de assassinos. Por engano, previamente urdido ou não, 3 oficiais de polícia viajaram no primeiro dos 3 carros da polícia, com o chefe de segurança, enquanto que os oficiais que supostamente deveriam ter acompanhado o chefe de segurança seguiram atrás, no terceiro carro. O arquiduque viajou num Gräf & Stift ou Phaeton duplo, carro esporte, com o capô abaixado. No trajeto, antes do atentado, o Gräf parou para ser inspecionado numa barraca de polícia.Mais à frente, Nedeljko Cabrinovic, um dos cúmplices, lançou bomba contra o automóvel do arquiduque, mas o artefato atingiu o segundo carro. Cabrinovic engoliu pílula de cianureto, atirou-se no Rio Miljacka, vomitou e não morreu. Foi dragado e espancado por multidão de revoltados sérvios. A comitiva rumou para a prefeitura onde discutiu a situação, mas o arquiduque manteve o programa, refez o percurso até que Gavrilo atingiu-lhe a veia jugular, distante apenas metro e meio do regente.Sofia foi atingida no abdome. Iniciado em 12 de outubro, o julgamento terminou no dia 23, cuja sentença foi lida em 28. Gavrilo, com 19 anos, foi condenado a 20 anos de prisão, onde morreu de tuberculose. Trama de novela policial de superior qualidade, cujos desdobramentos, até hoje, determinam grande parte do curso da política européia, desmantelada a partir do momento em que os velhos impérios ruíram com a Grande guerra de 1914-1918. Gavrilo era louco de pedra e a guerra um grande hospício.

Álbum de animais usados na Primeira guerra mundial

A Primeira guerra mundial, cujo centenário vai ser comemorado no mundo todo em 2014, e também em CTV, contou com aderentes de primeira hora e antagonistas nas horas seguintes, muitos dos quais voltaram atrás e apoiaram o conflito, a mais terrível das guerras, embora tivesse sido a derradeira grande batalha revestida de lirismo: coragem, patriotismo, largas experiências sexuais na Europa. Sempre que os moços da localidade, aprumados no uniforme, iam para o embarque na estação ferroviária, lá iam também os familiares, velhos amigos, o pároco, o prefeito, a banda, o cachorro. As moças acenavam os lencinhos úmidos, mas, no fundo do coração, torciam para que o noivo tivesse desempenho corajoso e desse cabo de muitos alemães, os adversários enfim. Vinham as primeiras cartas: a gripe espanhola, a chuva, o fogo da metralha, os estilhaços, o frio, a neve, o cigarro, o medo, a coragem. Seis meses depois do embarque, retornavam os estropiados, aos quais faltavam braço, perna, nariz, muitos desembarcavam enlouquecidos. A banda não foi esperá-los e os atos de coragem viraram cartazes envelhecidos nos museus. Com a onda mundial de proteção de animais, chocante será reconhecer que o camelo, o cão, o elefante, o cavalo, o gato, o boi e o pombo foram usados em larga escala no fronte, ainda que, por sua natureza, não nutrissem o mais mínimo sinal de retórica revestida de patriotagem. Aí vão alguns retratos desses heróis anônimos da guerra.

Primeira guerra: a batalha do Rio Somme, um dos maiores túmulos dos aliados.

A engenhoca acima foi apelidada pelos britânicos de male tank/tanque másculo, certos de que os machos são vigorosos e a tudo darão duro combate. Ledo engano: a batalha do Rio Somme foi uma das mais sangrentas da Primeira guerra e custou aos aliados mais de 1 milhão de feridos e mortos em 3 meses e meio. Dez mil soldados abatidos por dia. Iniciada em 1º./7, a batalha terminou em 18/11/16.Estratégias para a luta tinham sido discutidas pelos aliados em Chantilly/dez. 1915, cujas conclusões recomendaram ofensivas combinadas dos exércitos franceses, russos ingleses e italianos. O Somme foi o palco de estréia do tanque. Sem alternativa para o que se fez, Winston Churchill criticou a condução da luta. Os alemães comprovaram que o fronte ocidental não iria muito além do gogó.

A guerra naval

Se perguntarmos às pessoas bem instruídas onde é que a guerra se efetiva de maneira mais vigorosa – terra ou mar -, é bem provável que respondam que o meio líquido será desfavorável às batalhas, em particular a conflitos tão prolongados quanto a Primeira guerra. Não foi o que se viu: a poderosa Inglaterra e a Alemanha, oponentes, investiram somas vultosas na construção e modernização de embarcações, preparação demorada de marinheiros, canhões e bombas. É como se a terra – território rural por excelência – perdesse valor diante do mundo líquido, desconhecido, traiçoeiro e moderno. Tabuleiro de xadrez: torpedear do submarino o vaso de guerra do adversário, impedir-lhe o avanço na rota escolhida, impressioná-lo pela elevada qualidade técnica dum vaso de guerra. A um especialista em guerra naval pareceu que, embora tivessem sido soldados congeniais, Aníbal e Napoleão não puderam efetivar a supremacia das respectivas nações por não dispor de frota bélica avançada.

A Grande guerra e a servidão da mulher

O vasto cenário da Grande guerra de 1914-1918 estendeu-se por todo o mundo rural da Europa: quando a batalha eclodiu, a França tinha 39 milhões de habitantes, 56% dos quais ( 22 milhões) viviam no campo nos cuidados da agricultura familiar – de 1 a 10 hectares. 50% dos soldados franceses mobilizados para a guerra eram jovens agricultores e trabalhadores rurais. A República engolia os habitantes do campo com o apetite dum cruel Leviatã. Foi necessário injetar-lhes na veia uma mistura de patriotismo e entrega à nobre causa de liquidar os alemães. Quem cultiva inimigos cria para si emocionantes enredos. Os que sobreviveram voltaram loucos, aleijados, cegos, desiludidos. A gleba diminuta ficou a cargo da mulher que se transformou em animal de tração, à chuva e ao sol, charrua contra a pedra, sob pena de a beterraba não vingar. Xingado pelos ultraconservadores, Karl Marx escreveu que a exploração do homem pelo homem iniciara-se com a exploração da mulher pelo homem. Por acaso Marx está superado? As crianças puderam crescer porque as mulheres em tempo algum transformaram-se em representantes do sexo frágil. Agüentaram a bucha doméstica, enquanto que seus maridos viraram bucha de canhão no fronte.

O custo econômico da Grande guerra

Para a França, a Inglaterra e os demais países que se opuseram à Alemanha e seus coadjutores, o desembolso, monumental,com o custo da guerra foi 125 bilhões seiscentos e noventa milhões quatrocentos e setenta e sete mil dólares, o dobro do que gastaram os adversários – 60 bilhões 643 milhões 160 mil dólares. O significado concreto de tais números é tarefa para economistas que poderão dizer-nos também o que teríamos feito com essa fortuna se a aplicássemos na distribuição de alimentos, escolas, hospitais, moradias populares não asfixiantes, saneamento básico. Pela análise dos sonhos de alguns pacientes, Sigmund Freud soube antes o que viria a ocorrer depois: o gosto pela morte estava entranhado em muita gente, como expressão de sua agressividade interna. Em números redondos, o culto total distribuiu-se do seguinte modo: USA; 22 bilhões, Inglaterra: 35 bilhões, França: 24 bilhões, Rússia: 22 bilhões, Itália: 12 bilhões, Bélgica: 1 bilhão, Romênia: 1 bilhão e meio, Japão: 40 milhões, Sérvia: 400 milhões, Grécia: 270 milhões, Canadá: 1 bilhão e 600 milhões, Austrália: 1 bilhão e 400 milhões, Nova Zelândia: 380 milhões, Índia: 600 milhões, África do Sul: 300 milhões, Colônias britânicas: 125 milhões, outros países: 500 milhões, Alemanha:38 bilhões, Austro-Hungria: 20 bilhões, Turquia: 1 bilhão e meio e Bulgária: 800 milhões

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