CTV: 1918: três povoados, Município, luz elétrica, gripe espanhola e gafanhotos – Parte II

Cem anos depois, sem a perspectiva física do palmilhamento do terreno, já não nos damos mais conta de que Catanduva era formada por três povoados – São Francisco, Higienópolis e Vila Motta, de cujas fazendas vinha a seiva da musculatura da parcimoniosa economia da cidade. A esses povoados, um pouco depois, iria ajuntar-se a seção nova ou republicana do Município. Os povoados fazem parte da seção imperial de Catanduva, razão porque as praças de lá e de cá têm nomes distintos indicativos dos tempos diversos de surgimento – Praça da Independência e Praça da República.A Praça   da República, bem como a Praça 9 de Julho-Padre Albino não são apenas emblemáticas, mas acima de tudo metonímicas de diferentes sonoridades e visões de mundo e, the last but not the least, metafóricas. Por serem metafóricas, seu verdadeiro sentido estará sempre velado e a tarefa de quem reflete é descobrir-lhes o véu e surpreender-lhes o rosto limpo. Não se trata de mera curiosidade histórica lembrar que essas praças datam dos primeiros anos de formação do município, todavia assinalar a natureza sociopolítica desses logradouros. Ponderemos: Catanduva tinha/tem dois lugares (vamos chamá-los assim) antitéticos: a estação ferroviária e a matriz de São Domingos. As estações, aqui e alhures, por um tempo foram porta de entrada e saída das cidades e, na vida moderna, desempenharam o papel da muralha do castelo medieval: vigiar o estrangeiro, saber quem chegava ou saía, se transportava algum volume misterioso, com quem viajava. Em nosso imaginário, como o estrangeiro não é nosso conhecido, ele se mostra, ou por outra, ele disfarça no bolso interno do paletó o punhal do homicida. O estrangeiro entretém a paranóia até que nossas negras fantasias tornem-se reais. O trem servia/serve ao transporte de mercadorias e aos negócios de seus agentes. A igreja serve ao transporte das almas, à domesticação dos instintos (Sem filhos o mundo se despovoa, mas, para fazê-los, caímos em pecado!), à legalização do conúbio (Na verdade, a loira não é burra, mas insidiosa!). Se a estação vigia o espião, a igreja pune o mau cristão. Ao lado de seus aparatos e ornamentos metafóricos, os dois lugares comunicam-se com os cidadãos por falas metonímicas: no alto de suas torres há um relógio e, se o relógio ferroviário assinala o tempo da produção capitalista, o da igreja lembra ao ocioso que o melhor para o espírito é sacudir a preguiça capital e entregar-se ao negócio. O negócio é que a preguiça não acumula capital. Toda antítese camufla muito bem as identidades! A polarização estação ferroviária/igreja São Domingos repete-se no contraditório Praça da República/Praça 9 de Julho-Padre Albino. A República, enquanto fato de História, corresponde ao momento político em que a coroa monárquica, corroída por ferrugem, pôs de lado o discurso monomaníaco da França dos  luíses para dar lugar à desconexa algaravia popular. A praça é do povo e o bom cristão ouve e se cala.

Como escreveu Paul Virillio, a estação da estrada de ferro, como a muralha e a ponte levadiça da Idade Média, era a porta de entrada ou de saída das cidades. Quem estivesse na gare, assistia ao embarque ou desembarque do passageiro, observava a roupa por ele usada, o volume transportado ou quem o acompanhava. Naqueles dias da Primeira guerra, as velhas estações assistiram ao embarque da moçada romântica disposta a matar ou morrer: iam para lá o pároco, o cachorro, o bêbado, a noiva, papai e mamãe. É doce morrer no mar? Em Brest, na França, as trincheiras estavam infestadas de rato. Hoje, a velha porta rodoviária foi trocada pelos grandes  aeroportos. Quem chegou? Quem saiu? O espião estará entre nós? Passamos do olho vigilante do ferroviário para o olho eletrônico da câmera digital.No 11 de setembro norte-americano o avião foi usado como bazuca aérea. Ao queimar lenha ou óleo diesel, o trem – poderoso carro de bois –  transportava para o porto de Santos café, suor, esperança, o português estropiado do imigrante, enquanto a cidade escalava a vertente ascendente ou despencava pela descendente, para poder abrigar maior número de almas entregues à febre da vida econômica. Abatiam-se a peroba ou a embuia para se construir a mesa, a cadeira, a cuna do bebê,  a cumieira da casa, o caixão funerário: a cultura sobrepunha-se à Natureza. Onde houver Natureza, aí haverá matéria-prima. Cidade, portanto.

MaA Praça 9 de Julho, bem mais tarde, vai-se oferecer como museu em que se abrigam a lembrança de capacetes e fuzis que não deram certo, porque se recortavam pelo modelo do caipira picador de fumo, quer dizer, onde Getúlio falava em aço ou petróleo, o 32 nos lembrava da casinha de sapé e o porquinho no terreiro. Caa-tan-du-ba: no festim do churrasco, o berro da vaca não será lembrado nem o som do couro curtido ao sol que repercute no nome com que os caioás nos batizaram: caa, tan, du, ba.

Menos que um castelo, pouco mais que uma tapera

De 1894 a 1903, segundo os registros da Hospedaria dos Imigrantes, do Brás, em SP, 1 milhão de italianos desembarcaram no porto de Santos e, a seguir, distribuíram-se por fazendas de café do Estado: Prado, Schmidt, Dumont e outras.  Mais ou menos nesse período, Minas Gerais abrigou 50 mil meridionais: pessoas que migraram de São Paulo para as Gerais. O leitor mais exigente deve relevar a precariedade dos dados de estatística e  registros de datação incompletos  tendo em vista os  lapsos  na triagem de  levas e mais levas de europeus tangidos pela grande seca do último terço do século XIX e que provocou  êxodos em escala mundial. A publicação de Crime e castigo, de Dostoiévski, em 1866, e O capital, de Karl Marx, no ano seguinte, articulam-se como obras seminais na captação por semelhança do estado de indigência de contadini e a baixa classe média da Rússia czarista. Dostoiévski tinha estado no exílio da Sibéria e sabia das coisas. O protagonista do romance mata, com  requintes de crueldade, a velha usurária, cujo assassínio, afirma Raskolnikov, justifica-se diante de elevados propósitos, como as ações de Napoleão Bonaparte. Raskolnikov quer dizer dissidente. Na criação de

Raskolnikov, Dostoiévski inspirou-se numa figura real, o poeta Lacenaire, assassino confesso que entendia que a prisão era a universidade do crime. Os Raskolnikovs do 64 foram mestres dos discípulos  do Comando vermelho. Baudelaire disse que o poeta era um dos heróis de nosso tempo, tempo esse que se prolongou no atual. Vê-se, portanto, que as necessidades materiais, prolongadas, estimulam o crime. Como escreveu Karl Marx: “…se 20 homens trabalharem, cada um trabalha para si apenas meio dia. É o mesmo como se só 10 homens fossem pagos e 10 trabalhassem de graça para o capitalista”. O machado de Raskolnikov foi trocado por revólver. Não tem revólver? Há armas comunitárias aqui ou nos EUA.  Trinta anos antes, Antônio Maximiniano Rodrigues vendeu a Giuseppe Sartori a fazenda Moreira localizada no Higienópolis e imediações, depois de ter-se deslocado de Conceição do Rio Verde/MG para São Domingos do Cerradinho. Terras boas para o café em Minas, terras excelentes para o café aqui, que mato ruim é bobagem sem pé nem cabeça.   Isto mostra que o deslocamento de crianças, adolescentes, adultos e idosos, por décadas, manteve-se regular. Se a coisa apertar aqui, siga em frente.  Quer saber por que os tubarões não são veganos? Pergunte aos sobreviventes do Mediterrâneo cujas águas estão manchadas do sangue rubro dos migrantes de ascendência árabe ou africana. O romance desmontável Vidas secas, de Graciliano Ramos, configura o tema da fuga do torrão de origem para plagas desconhecidas,  de maneira dramática e precisa. Como muitas vezes o grito potente não passava de sussurro,  Marconi e Tesla nos presentearam com o telégrafo, de tal modo que o discreto ruído do código Morse trouxe da Europa a saudade de quem ficara, ou para lá enviou as queixas de quem viera. No período, o governo imperial abriu à livre navegação mundial os rios Amazonas, Tocantins, Tapajós, Madeira, Negro e São Francisco. A atividade econômica era febril. Vinte anos antes da libertação dos escravos no Brasil, os norte-americanos instituíram, em 1868, a jornada de trabalho de 8 horas. Eles liam Marx, nós as letras rubras do sangue nos pelourinhos. Como a propaganda foi sempre a alma e o cérebro do negócio, as companhias de navegação européias e brasileiras de imigrantes mandaram imprimir cartazes em que convidavam os meridionais a reconstruir o sonho com o saibro da esperança. Na Mérica, morava a esperança – “um país de oportunidades”.[Imagens: homens e animais, em CTV ou na Itália, porque a vida difícil achava-se em todos os lugares do mundo: carne, manteiga, queijo, montaria, tração do carro de bois. Antônio Maximiniano mourejava de sol a sol, como os meridionais na zona rural européia. É bem provável que esta casa modesta em que Maximiniano  residiu tivesse sido erguida na fazenda que ia da esquina da Minas com a 13 de Maio, antigo Bar Carvalho, até o aeroporto.]

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   Diário do colono Giuseppe Sartori Depois de desembarcar de navio no porto de Santos, só, ou então acompanhado de mulher e filhos, mãe ou sogra, o estrangeiro Giuseppe Sartori rápido dirigiu-se à Hospedaria dos Imigrantes para cuidar da identificação e o pernoite e dali rumar para uma das  lavouras cafeeiras de Henrique Dumont. Quem tem boca vai a rumo, desde que não lhe falte prumo.  O encarregado adiantou-lhe dinheiro para as despesas iniciais. Caso Sartori viesse a ser despedido antes do final do contrato de 4 anos, os bens caucionados – animais ou colheita – iriam quitar-lhe a dívida contraída no primeiro dia de trabalho. Anos mais tarde, num dos vários discursos pronunciados durante a campanha civilista à presidência da República, Ruy Barbosa sublinhou a unilateralidade do contrato de trabalho firmado entre colono e fazendeiro com os seguintes termos retóricos: “Aqui também as contas dos operários rurais nos armazéns de venda, mantidos nas estâncias e fazendas, enredam os trabalhadores do campo na entrosagem de uma dependência, que, se não é nem o cativeiro, nem a servidão da gleba, tem, pelo menos, desta e daquele as mais dolorosas características morais, as mais sensíveis derrogações da condição humana”. Com pitadas de ironia,  e como convinha a um escocês do século XVIII, David Hume escreveu na Investigação acerca do entendimento humano: “As camadas inferiores do povo e os pequenos proprietários são suficientemente bons juízes de quem não esteja muito distante deles em dignidade e posição social, e portanto, em suas reuniões de freguesia, é provável que escolham o melhor ou aproximadamente o melhor representante; mas são totalmente incompetentes para as reuniões de condado e para eleger os mais altos funcionários da república. Sua ignorância dá aos grandes oportunidade para ludibriá-los”. Lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé. Estratégias de sobrevivência? Do couro sai a correia. Em 1918, o salário mensal do trabalhador rural ou urbano oscilava entre 80 e 120$000. Segundo Edgard Leuenroth, uma família na gleba com 2 filhos e a mulher no eito precisava de 207$650 para viver a duras penas. Supondo que, por acaso,  cada um deles recebesse 90$000, o magérrimo orçamento alcançaria 360$000, valor que os deixaria com folga mínima de 152$350. Com isso, olhavam com espanto para a seguinte tabela de preços: 1 kl de arroz de 2ª.: 8$00, 1 kl de pão: 5$00, 1 kl de macarrão: 14000, 1 kl de carne:1$000, 1 kl de banha: 10$00, 1 terno: 40$000, par de sapato: 12$000, chapéu: 7$000, camisa: 4$000, vestido de chita: 20$000, par de chinelo: 12$000, roupa e calçado para dois filhos: 100$000, fósforo, cigarro, barbeiro e mensalidade da sociedade de socorro mútuo 17$000.  O colono era acordado às 4 da madrugada por toque de sino e às 5,30 começava a labutar na lavoura até o entardecer. Cada colono tocava de 2500 a 4000 pés de café, com as seguintes tarefas: replantio dos pés mortos, 5 carpas e ajuda na colheita. Doze meses de trabalho anual. O salário era pago à razão de 1000 pés por colono, ou seja, de $60 a 90$000, além de 500 ou 600 réis por 50 litros de café colhido. Ciclo de vida do cafeeiro: com um ano de vida, a planta atingia 10 ou 15 cm e despontava acima do monte de gravetos que a protegia do sol; com 10 ou 12 anos, a árvore alcançava a maturidade; no 3º. ano, o pé frutificava-se; aumentava a carga no 4º. ano e no 5º. alcançava boa produção. O empreiteiro Giuseppe Sartori tinha por obrigação formar o cafezal e cuidar dele por 4 anos, em cujo período tratava  também da roça particular de milho ou feijão alinhada com os pés de café. O produto do 4º. ano, por contrato, foi entregue a Sartori. E foi com ele que Giuseppe transferiu-se para o São Domingos do Cerradinho.

Ao sair duma das lavouras cafeeiras de Henrique Dumont, na região de Ribeirão Preto, com o pé de meia do 4º. ano, o colono Giuseppe Sartori comprou gleba no alto do São Francisco. As terras ficavam numa das três “vilas” dos primeiros anos de São Domingos do Cerradinho:  três quadriláteros colados nas paredes descendentes de dois grandes cones geomorfológicos do burgo em formação. Onde houver Natureza, disse Karl Marx, haverá cultura que se inicia com a agricultura. Cada um dos dois grandes cones acha-se muito bem recortado por cones menores, no interior dos maiores, numa topografia semelhante ao dorso dum serrote. Talvegue. São Domingos do Serradinho. Ao contrário do zen para o qual a destreza decorre da arte de cavalgar o dorso dum tigre em movimento, nós o fazemos no sobe/desce dum serrote. O tigre conduz o monge  e o ensina que no mundo de aparências a vida está sujeita a inesperados solavancos, enquanto nós perdemos o fôlego para escalar ou escorregar pela lâmina do serrote. Como as crianças, adoramos o mundo das aparências. A fazenda São Francisco encravou-se no quadrilátero formado pelas ruas América, 15 de Novembro, Paraná e Acre (isto é, o refúgio, a utopia, o mundo mítico, a Mérica; a República; o curso d’água e a vida amarga).  A “vila” Higienópolis compreendia as ruas São Paulo, 7 de Setembro, Municipal e Rio Grande  do Norte ( quer dizer, a extensão do burgo, o ato matricida contra a Coroa, o nosso quintal  e o reconhecimento da mulher pelo voto). Ambas situavam-se na parte velha ou imperial do Cerradinho, enquanto que a gleba da parte nova ou republicana recortava-se entre as ruas Paraíba, Amazonas, Minas Gerais e Ceará (o rio-mar, o mundo largo, a Europa, o lugar da febre e da seca, Iracema & Senhora, Eros e Tânatos). Fotografou? Se não fotografou, dançou. O fato é que o exame acurado e o palmilhamento do terreno recomendaram tanto aos Figueiredo quanto a Sartori os passos mais acertados para não se  quebrar o pescoço na pirambeira da Rua 15 de Novembro, já que a Rua Acre declina pela parte mais suave do cone. Para baixo todos os santos ajudam. No alto dessas vilas ou fazendas, colonos e proprietários, por muitos anos, protegeram-se do grande charco do Rio Japurá/São Domingos e das mortais febres palustres. O intensíssimo comércio da Rua São Paulo floresceu por força da atividade cafeeira das duas vilas encravadas na parte velha, enquanto a vila republicana a que você chegava depois de escalar o paredão da Rua 3, em breve, Rua da Estação, ganhou musculatura  a partir dos anos 30s, com a nova economia de Getúlio Vargas, colcha de retalhos  em que se coseram Stálin e Roosevelt.

Legendas:

Casa Americana, à esquerda, atual Café da Esquina. Rua Brasil, paredão acima: no fundo, a segunda versão da EFA (a primeira foi incendiada em 1919). Depois da estação, para cima, vêem-se o Higienópolis, no centro, e um trecho do São Francisco, à direita. Os burgos em formação eram pequenos e modestos, porque a vida febril fazia-se na zona rural.

Vista muito antiga da cidade: da Rua São Paulo para baixo: o gradil da linha férrea não tinha sido erguido e o terreno ao longo do Rio São Domingos fôra aterrado há não muito tempo, com a terra removida do grande barranco da estação ferroviária. Henrique Dumont, o trem e o café nos salvaram do tifo e da maleita.  No alto, um pouco deslocada do centro, a igreja de São Domingos. 

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