Os primeiros mandatos: curtos, porém operosos e cumpridos com Engenho e Arte I

Luiz Roberto Benatti

Até 1930, os prefeitos foram  eleitos pela Câmara municipal, os períodos de gestão eram curtíssimos e os mesmos cidadãos voltaram mais vezes para levar a cabo  o exercício de  novos mandatos. De 1918 a 1937, passaram-se apenas 19 anos, mas foi como se tivéssemos tido 9 prefeitos, visto que Ernesto Ramalho administrou  em duas ocasiões, Francisco de Araújo Pinto, 3 vezes, Adalberto Bueno Netto, 3 vezes e Nestor Sampaio Bittencourt, uma vez. Eles pareciam  entender-se  no poder ou fora dele, papeavam sobre o quê fazer e como fazê-lo, não abriam licitação  nem mesmo para comprar a mula chinfrim do velho tio Ercolim. O que nos dias que correm chamamos de centro ia da Rua Paraíba até a Minas Gerais e da Amazonas até a  Ceará. O São Francisco iniciava-se na Rua América e terminava na Rua Paraná e da Rua Acre alcançava a XV de Novembro, enquanto que o Higienópolis ia da Rua São Paulo à Municipal e da 7 de Setembro até a Rua Rio Grande do Norte.

 Ernesto Ramalho: No dia 18 de abril de 1918, inspirado no regimento interno da Câmara de Taquaritinga, Ernesto Ramalho promulgou o nosso, de acordo com a resolução no. 2. Pela resolução seguinte, o prefeito alugou parte do prédio arrendado por Joaquim Furio de José Chaib, onde instalou a administração da cidade, ao lado do futuro Cinetheatro São Domingos/República, na Avenida no. 3, atual Rua Alagoas, entre as ruas Brasil e Maranhão (na imagem, vêem-se o caminhão e a bandeira do Brasil em frente do prédio da prefeitura).A  República estava incrustrada na cabeça, nas vísceras e no coração dos administradores.

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Há apenas 29 anos da República,
não sabíamos como tingir nossa bandeira

Os críticos  dos EUA, ao tomar conhecimento do fato, poderão involuir  para o delírio persecutório, mas é bom que saibam: o primeiro padrão de bandeira republicana do Brasil recortou-se pelo molde do estandarte norte-americano: estrelas circunscritas num quadrado ajustado no alto, à esquerda, e 13 listras horizontais. A alternância de verde e amarelo rejeitou  as cores da bandeira da Revolução Francesa imitadas pelos norte-americanos. Tanto o desenho quanto suas cores foram rejeitados igualmente por Deodoro da Fonseca, criatura furibunda capaz de dar murros em mesa para impor a vontade. Deodoro foi levado por maçons a trocar sem tiros o regime monárquico pelo republicano. Todos os maçons eram mais perspicazes  que Deodoro. Em seu foro íntimo, ele não nutria o menor grau de convicção na República, como ainda, por admirar o monarca Pedro II, afirmou que gostaria de conduzi-lo ao túmulo quando fosse a ocasião. Quando Deodoro entrou com a tropa na atual Praça da República do Rio de Janeiro, ele gritou para ser ouvido pelos presentes e os pósteros:”Viva Sua Majestade, o Imperador!” O Brasil é uma colcha imensa de contradições que as fiandeiras do Destino teceram e desteceram inúmeras vezes, até que os fios se puíssem de modo irremediável. O destino das bandeiras puídas é a pira crematória. Como se explicam tais contradições se não pelo fato de o prolongamento  da escravidão negra ter sido o mais atro de todos os pesadelos vividos pela classe dominante do País? Liberdade! Liberdade!/abre as asas sobre nós,/das lutas na tempestade/dá que ouçamos tua voz. A primeira letra do hino nacional, cujo poema foi redigido por Medeiros e Albuquerque e musicado por Leopoldo Migues, também foi recusado pelo militar. Assim, a bandeira oficial só pôde ser hasteada em 19 de novembro. Por 4 dias, ficamos sem pavilhão nacional. Caso nos tivéssemos metido numa refrega com o Paraguai, nenhum pano colorido iria tremular do nosso lado. Como Deodoro tivesse hostilizado a música vencedora de concurso e exigisse nova composição, esse novelo esticou-se até 1906, quando a letra de Joaquim Osório Duque Estrada foi escolhida. Acrescente-se, por fim,  que a oficialização definitiva do hino deu-se tão-somente em 1922, trinta e três anos depois da proclamação da República por Deodoro. Se você não se orienta por símbolos, estará desorientado de vez e tombado no chão do irreal. A República de 1889 continuou a chapinhar na água até 1930, com Getúlio Vargas, quando, então, sem disfarces, ela enveredou pelo fascismo. O espírito de Deodoro pairava sobre o Rio de Janeiro, como Euclides da Cunha, socialista, denunciou nas páginas de Os sertões e o carioca Afonso Henriques de Lima Barreto, em Triste fim de Policarpo Quaresma. Com quantas listras horizontais se faz uma bandeira republicana e quais as cores mais ajustadas à Revolução? Revolução? Não é o nosso caso, embora a bandeira de CTV tenha 13 listras, se  considerarmos  a repetição das cores azul, amarela e vermelha. Em heráldica, tanto a cor quanto os ícones inscritos no pavilhão têm significado. Assim, azul representa a verdade e a lealdade; amarelo remete à generosidade e à elevação da mente e vermelho simboliza o espírito de bravura, mas também o martírio. Conclui-se, portanto, que, sem a antevisão duma boa batalha, o destino da bandeira é ficar enrolada. O café, a cana de açúcar, o leão, a roda dentada e as ameias do castelo são os ícones inscritos na bandeira. Estranhos são os ícones que remetem à realeza (leão) e à segurança ou defesa da cidade (as ameias). Hasteados em datas cívicas, os pavilhões, de modo geral, não são lidos ou interpretados pelos cidadãos, a não ser a bandeira nacional, assídua freqüentadora dos campos esportivos.

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 Em vez de mandar construir um imenso piscinão no Dia de Ramos, na baixada pestilenta do São Domingos, Ramalho tratou de proteger pessoas e papéis das águas invasoras no alto do Largo do jardim/café, futura Praça da República. Pela resolução no. 4, apenas dois dias depois da instalação do Município, criaram-se 10 escolas, na sede e nos distritos, uma escola em Ibarra/Catiguá e uma outra escola mista no bairro dos Coqueiros, que perdeu a importância que tinha, além de duas outras para o Córrego José Dias e uma terceira para o Bate- Panela. Pela lei ou resolução no. 7, o prefeito foi autorizado a desapropriar terrenos alagadiços às margens do São Domingos bem como fazer-se  a abertura de novas ruas (Essa percepção de que as modificações feitas no ambiente hostil conduzem ao surgimento  de novos comportamentos acha-se prejudicada em nossos dias pelo fato de os administradores  terem desprezado  o hipocampo, como sede mental de atualização do mapa cognitivo. Quem sabe mais sabe o menos e mais.  _______________________________________________ Uma coisa é o saneamento, outra é o rio semimorto e seu lamento. Em 20 dias, sem que se ouvisse um único grito histérico, prefeito e Câmara elaboraram o regimento interno, providenciaram o aluguel para o prédio da prefeitura, criaram 10 escolas e iniciaram a árdua tarefa de sanear o rio. Mudou o tipo de cortiça do champanhe do  Natal ou mudamos nós? Depois de promulgar a lei no.8 sobre o fornecimento de energia elétrica para a cidade, no dia 10 de maio, e logo a seguir, no dia 14, Ramalho e Gattaz Neme Maluf, proprietário da empresa de energia, lavraram escritura no Cartório de paz do Distrito de Catanduva, Município e comarca de Rio Preto, folhas 87 a 101 do Livro de notas no. 25, para o serviço de iluminação pública, por 20 anos, e, por extensão, para o fornecimento de luz residencial. O dínamo da companhia estava instalado na Rua Paraíba entre as ruas Brasil e Pará, e o fornecimento estendia-se das 6 horas da manhã até as 22 horas. Procedente de Barretos, ao mudar-se para o Cerradinho Gattaz Maluf  abriu uma máquina de arroz. Como trouxera de Barretos um dínamo, tratou de iluminar firma e residência, que logo depois tornaram-se de interesse da vizinhança a quem ele passou a vender energia. A cláusula no. 6 do contrato com a prefeitura obrigou a empresa , 12 meses depois, a substituir o dínamo por turbina de 100 klwatts movida a vapor ou força hidráulica. Tempos depois, Maluf instalou na Rua Petrópolis, esquina da Rua São Francisco,  subestação de eletricidade, local em que havia um gerador de motor a óleo que consumia 13 tambores a cada 24 horas. Em 3 de junho, pela lei no. 10, Ramalho batizou ruas e praças , na Vila Adolfo identificadas por critérios numéricos, por uma cartografia nacional, que, uma vez abandonada, permitiu ao vereador espalhar pela cidade um álbum de família bastante sentimental porém refratário aos grandes nomes do País(Agora, o tio que vende pipoca dá nome à biboca): as velhas ruas 1,2,3,4,5 e 6 de Vila Adolfo passaram a chamar-se Amazonas, Pará, Brasil, Maranhão, 13 de Maio e Ceará; as avenidas 1,2,3,4,5 e 6 passaram a chamar-se ruas Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Minas Gerais; o Largo do jardim ou do café passou a chamar-se Praça da República, e o Largo da Igreja teve o nome alterado para Praça São Domingos. Quem sabe dar nome aos bois grita pelo animal  que se foi. Os nomes da Catanduva de outras épocas também foram rebatizados: Rua Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Municipal, 7 de Setembro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Praça da Independência, XV de Novembro, Piauí, Acre, América, São Francisco e Paraná. Nesse tempo, o Brasil cabia em Catanduva.

A instalação do Município combinada com a elevada capacidade gerencial dos primeiros prefeitos empurraram Catanduva para a frente. Em 23 de maio, instalou-se a Coletoria de rendas estaduais, ocasião em que Ernesto Ramalho assumiu o cargo de coletor. Aos presentes foi servido um copo de cerveja. No dia 13 de junho, Ramalho transferiu o cargo de administrador a Francisco de Araújo Pinto, membro do diretório Republicano.

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1920-1923, época de correção de rumos na cidade,
desconhecidos nos dias que correm

À esquerda, no pé da imagem, vê-se refletido na poça d’água o alto do poste de luz, em frente da companhia de luz elétrica.  No fundo, à direita, o prédio do Primeiro grupo da Rua Pará com a Paraíba. A multidão está ali para ver as águas espraiadas do Rio São Domingos, antigo Japurá, resultantes da enchente. O rio foi nosso primeiro grande problema e, como se vê pela concretagem, será o último. Entopem-se de cimento as margens do rio e fecham-se assim as torneiras da natureza por onde fluem os fios d’água das encostas. O zóio tem o tamanho do borço e o borço é saco sem fundo. Nesses três anos, a cidade foi administrada pelo médico Francisco de Araújo Pinto, de quem estamos deslembrados. Ele sabia o quê fazer e como fazê-lo. Em 1919, tinha estado  no magote dos revoltosos que queimaram até o chão a primeira versão do prédio baixo da Railroad & co. Hoje o prefeito esconde-se embaixo da cama da tia Margarida, tapa a cara para não ver o bicho—papão e, no dia seguinte, vai à rua gritar contra o perigo socialista. No período, o prefeito trocava o assento do gabinete pela rua e as maquinações de gabinete pela reconstrução social, sanitária ou política.

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Araújo administrou a cidade de 16 de fevereiro de 1920 a 15 de janeiro de 1923, a seguir substituído por Ernesto Ramalho que voltaria para o segundo mandato. Logo nos primeiros dias, o prefeito iniciou as duras tarefas de levar a cabo o aterro da várzea do Rio São Domingos, cujas águas estendiam-se, com largueza, da curva dos bombeiros até os fundos da atual rodoviária. Providenciou também a construção das pontes de madeira das ruas Maranhão e XV de Novembro sobre o córrego Cerradinho ou Fundo. Pela lei no. 55, de 30 de julho de 1920, referendou os nomes das   ruas Ceará, Belo Horizonte, Minas Gerais, Cuiabá, Recife e Belém. Os batismos comprovam que a cidade fez-se de modo planejado 60 anos antes que Lúcio Costa desse a Brasília moderna quadriculação: pudéssemos transplantar Catanduva para Paris ou vice-versa, como sugeriu Allysson Mascaro, teríamos sido presenteados com versão miniaturizada da Ilha da cidade, em meio ao rio, na Rua  Paraíba, no antigo leito, mas na direção da 24 de Fevereiro, e de lá para cá, até a rua Amazonas. Paris não se mudou para cá. Pelo leito natural, incorretamente desviado, o rio corria até bem próximo da Rua Rio de Janeiro. Misto de clínico geral com formação de  sanitarista, Araújo, pela lei no. 60, de 31 de janeiro de 1921, encomendou estudo aprofundado dos serviços de água e esgoto, problema que se tornou dramático porque, além de cobrar taxa de esgoto em áreas da cidade não servidas por rede de transporte de dejetos, as últimas administrações  multam de modo pesado quem  construiu fossa séptica há 25 ou 30 anos com a alegação de que elas se desatualizaram. Os prefeitos antigos faziam, os novos desmancham o que se fez, além de dormir, não em travesseiros perfumados de alecrim, mas em  pesadelos que cheiram a enxofre. 1920 foi o ano também de início da construção do Cineteatro República, inaugurado em 1927. Os dias da semana eram de muita faina e os finais eram de diversão que hoje seria talvez ridicularizada: nos Finados, o maestro Ruta tocava música fúnebre diante dos túmulos do cemitério por taxa módica, e nos fins de semana o catanduvense ia esperar o trem da Railroad procedente da Capital e, logo depois, assistia a um filme no Cine Central, ao lado do café da Marina.No dia 5 de setembro de 1921, o corpo de Domingos Borges da Costa, o Minguta, foi velado no prediozinho da prefeitura na Rua Alagoas. O poeta Martins Fontes, por esses dias, pronunciou palestra sobre a Dança. Onde ficavam a cidade proibida ou as filiais de Sodoma e Gomorra? Na Rua Pernambuco com a Amazonas, onde estava  o cabaré de madame Mariquita, mulher de grande beleza, alta, cabelos negros até os ombros e que fumava em público. Num cavalo branco, aos domingos depois da missa, ela passeava pela cidade e as senhoras distintas roíam os dedos de inveja e ódio. Uma pena que a nossa historiografia não se lembre de trazer para a análise dos  fatos alguns acontecimentos internacionais, como foi a Guerra do Rife, no Marrocos, entre 1920 e 1926, em que  a Espanha apanhou feio dos berberes. Convido o leitor a assistir ao belíssimo filme O tempo entre costuras sobre a guerra marroquina, no qual, dentre outras coisas, poderemos nos dar conta de como as mulheres da classe alta dedicaram-se à costura do fardamento dos que iam morrer em nome do colonialismo quase que tardio. A Guerra do Rife talvez explique porque, no censo demográfico realizado por Araújo Pinto, o número de espanhóis na cidade (2060) era superior ao de italianos (1775). Melhor zarpar do que virar bucha de canhão. 

Inaugurou-se o primeiro cinema da cidade no dia  15 de junho de 1918, num prédio de Pedro Celli, na esquina da Rua Rio de Janeiro com a Brasil. O espectador levava de casa a cadeira. Pela lei no. 12, o prefeito decretou a obrigatoriedade de o catanduvense rebocar as paredes da casa, fazer calhas pluviais e o encanamento. Deu-lhe prazo de um ano para a execução dos serviços, findo o qual a melhoria seria feita pela administração cujo valor de custo foi cobrado com mora. Pela lei no. 15, a prefeitura passou a executar o serviço de sargeteamento e abalamento das ruas. A lei no.18 obrigou os moradores da cidade a eliminar os formigueiros nos quintais e a no. 21 proibia o abade de bovinos ou suínos noutro local que não fosse o matadouro do Município. O toicinho não podia ser vendido salgado sem antes passar pelo dessalgamento. A lei no. 24 obrigava os munícipes cujas ruas tivessem guias e sarjetas a construir muros cimentados. Araújo providenciou também a abertura de novas estradas: CTV a Itajobi, depois a Novo Horizonte, Palmares, Tabapuã e Urupês. Francisco de Araújo Pinto foi médico preocupado com a saúde pública.  De 24 a 26, forte geada devastou muitos pés de café. Em 16 de agosto, a prefeitura isentou do pagamento de impostos a entidade La allianza como foi denominada a futura Sociedade Hispano-brasileira. Em 18 de setembro, instalou-se o distrito policial de Ibarra. No mês de novembro, uma  nuvem de gafanhotos foi responsável por grandes prejuízos na lavoura, mas também pela diversão da garotada que batia latas para afugentar os insetos. Ano de funestos acontecimentos, 1918 assistiu à morte de muitos cidadãos pela gripe espanhola.

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CTV, a gripe espanhola e o cemitério invisível

Como a moda, a gripe vai e volta e, no retorno, ela ceifa vidas sem dó nem piedade. Para o historiador, chamá-la, como o fazemos agora, de gripe aviária ou suína significa, talvez, desorientar a criatura humana quase sempre desassossegada com desacertos do dia-a-dia.

A gripe é endêmica nesses animais, razão por que, quase sempre, ela migra da Ásia para o restante do mundo. Além dos galináceos que com ela convivem desde a aurora dos tempos, os patos, migratórios, descem do alto para a superfície dos grandes lagos asiáticos para banhar-se e tomar água, que os porcos criados soltos tomam e, com o líquido, fragmento de fezes das aves. Os asiáticos são assíduos consumidores de carne suína.

O resto do percurso faz-se pelo deslocamento cada vez mais volumoso das pessoas pelo globo. Se é verdade que não costumamos de bom grado dividir com nossos pares caraminguás preciosos, partilhamos com eles o perdigoto do espirro e o gracioso aperto de mão. Há pouco, a Organização Mundial da Saúde advertiu as autoridades do mundo inteiro para o grau de periculosidade de grau 5 da gripe. Leiam o Levítico. Além do retorno da gripe, há outro fato que nos remete à Primeira Grande Guerra: o conflito bélico do Oriente Médio. Gripe e guerra formam o par perfeito para a instalação e a difusão das doenças, mas também para a dilapidação da economia. Como se deram as coisas em 1914-1918?

À Primeira Guerra Mundial, nos estertores finais, seguiu-se a gripe espanhola. Desgraça pouca é bobagem. Viam-se cenas muito parecidas com as dos fotogramas de O sétimo selo do cineasta sueco Ingmar Bergman: corpos fragilizados, almas esmorecidas, perda do sentido de reconstrução e continuidade da vida. A gripe desencadeou-se no justo instante em que Vila Adolfo estava para virar Catanduva.

Mato ralo e cidade em formação. Festa de Carnaval, do Clube 7 para cima e para baixo, pela emancipação política – e procissão de trevas pela exorcização da gripe. Eram tantos os que tombavam mortos, que os coveiros não dispunham de caixões suficientes para agasalhar corpos quase-febris. Foram atirá-los em covas rasas, cobertos de cal, ao longo da Rua Sergipe, um pouco acima do antigo leito do Rio São Domingos (pela Rua Paraíba), do centro mal arrumado até os confins do SENAC.

Do leito do rio, Maranhão acima, a Sergipe é o primeiro degrau de terreno sólido, numa topografia que se fez por talvegues ou um pouco parecida com o dorso dum serrote.

A gripe espanhola não se originou na Espanha

Apesar do codinome que a tornou conhecida no mundo todo, a gripe espanhola não se originou na Espanha, mas provavelmente num acampamento de soldados do Kansas, nos EUA, prontos para embarcar para a Europa em guerra. Havia 26000 soldados nas barracas e, no dia 1o. de março de 1918, 107 deles manifestaram gripe severa e faleceram. No entanto, os sobreviventes, hospedeiros do vírus, seguiram para o fronte. Quem se safou da gripe, contaminou companheiros e inimigos. O apelido se impôs porque o rei de Espanha foi uma de suas primeiras vítimas notórias. A pandemia pode ter surgido nas trincheiras francesas infestadas de ratos:

Houve surtos em Brest e St. Nazaire, mais tarde associados com a chegada das tropas norte-americanas. É provável que na primavera de 1919, alastrada por quase todas as nações do mundo, a gripe tivesse atingido o ápice com 27 milhões de mortos, a maioria dos quais na África, Índia e China. Dois milhões e 200 mil mortos por mês.

O mal era velocíssimo e devastador: em junho de 1918, 160.000 berlinenses foram contagiados e, na Filadélfia, nos EUA, 650 num único dia. Em razão da inexistência de antibióticos, recomendavam-se remédios caseiros e tisanas, como rapé, toalhas embebidas em vinagre quente, doses fortes de uísque ou gengibre, soda e açúcar em copo de leite quente. Em nossos dias, ainda alimentamos a fantasia de que uma boa chiboca nos cura da flu e suas variantes. Médicos especialistas advertiam para o uso obrigatório de máscara como meio único de evitar-se o contágio.

Mais tarde, assim como veio, a gripe passou. Na arte surrealista de ceifar vidas, a gripe foi o mais eficiente dos coadjuvantes da Primeira Guerra Mundial.

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No dia 1º. de janeiro de 1919, Adalberto Bueno Netto tomou posse para mandato de um ano, até 16 de fevereiro de 1920. O orçamento do Município era de 108 contos de réis.

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