Lembranças de meu pai

Edvaldo Fabiano Dos Santos

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Meu pai era mascate nos anos 80s. Foi apelidado de  Salim, porque achavam que ele tinha sangue árabe. Na verdade era esse  um diminutivo de seu nome, Gonçalo. Talvez sua ascendência ibérica coloque nisso algum fio de verdade. A realidade dos anos 60s o tirou do campo para viver na cidade, onde ele não teve  paciência para lidar com patrões. Decidiu que o trabalho por conta  seria a melhor opção. A ideia era inteligente: levava produtos da cidade para a zona rural e vice-versa. Naquele tempo,  levava-me junto, para pegar galinhas, leitões, pesar produtos e desencavar a kombi. Era uma necessidade que me fez perder as  aulas de Geografia do prof.  Spina, o que me acarretou repetência escolar em 1987.Mas me conformava, porque meus irmãos diziam que eu era o caçula, “peguei a vaca gorda”. Meu pai não tinha muita ideia sobre a crise do petróleo e o Pró-álcool ou as causas da inflação galopante, mas tinha soluções práticas para seguir sobrevivendo: a perua kombi adaptada clandestinamente com gás, o escambo reinante procurava ajuste às realidades econômicas. O veículo saía lotado de pães franceses, bengala, doces, “bolacha mata fome” etc. e retornava com queijos, porcos, galinhas, tijolo baiano, ovos caipiras e peixes, que minha mãe industrializava e comercializava. A troca de produtos no campo muitas vezes obrigava meu pai a conceder crédito “na caderneta”, tempos de escassez, muita pobreza e inflação. A inadimplência foi a saída pra muitos; meu irmão mais velho resolveu pendurar uma lista de caloteiros no veículo – o que lhe rendeu uma faca no pescoço, que por pouco não o feriu, na fazenda Aparecidinha. Eu me lembro bem das “linhas” de comércio em que meu pai se embrenhava: toda a região de Salles, Urupês, Irapuã, Vila Roberto, do Quebra- dentes à Jacuba, era muita pobreza e abandono para quem insistia em morar no campo. Na linha de Catiguá/Tabapuã, havia a fazenda São Pedro: dava dó ver um menino,  pre- adolescente, vítima da paralisia infantil e  que se arrastava no pó da terra vermelha, completamente nu, em nossa direção quando lá chegávamos. Pobre menino que  não teve acesso às vacinas. Havia também a fazenda Zaire (indo pelz SP-310 no sentido de Rio Preto, à direita da pista, após o pedágio).Era uma enorme gleba, na estrada de Japurá, com casas de colônia conjugadas,  escola e  capela, aproximadamente 50 famílias que possuíam seus nomes na caderneta de crédito do Salim. Do grupo escolar, não restou nem a parede que sustentava a lousa. Napenúltima vez em que lá estive encontrei a cruz da capela perdida em meio ao canavial. Num belo dia no fim dos anos 80s, meu pai estranhou a falta de pagamento daquela fazenda: 2 meses sem receber de nenhum morador para a  nossa desagradável surpresa todos haviam se mudado ao mesmo tempo e  meu pai ficou apenas com as cadernetas, sem receber. Ele não compreendia muito as causas do êxodo rural, mas sentia na pele e no bolso as consequências da crise econômica, enquanto o café era substituído pela cana.

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