A casa (em andamento)

Luiz Roberto Benatti & Elko Perissinotti.

Do dia para a noite ou do nunca antes para o de sempre, a casa amanheceu com rachaduras, água gotejante pelos poros do reboco, trincas nas portas e fechaduras, lata de arroz rachada. Uns disseram que quando Deus quer é porque chegou a hora da desgraça, outros responderam que neste mundo de meu-deus tudo passa e deram como exemplo o Vesúvio esquecidos  onde ele expelia fogo pela boca. À noite, um velhote tido por sábio apontou para a estrela Vênus que é um planeta  e profetizou que é de lá que vêm os males e que os pecadores vão chorar lágrimas de terra sienna queimada.A distância média da Terra a Vênus é de 0,28 AU: por isso é que os cães latem para a estrela.  Primeiro você injeta o desejo, a seguir você faz dele a coisa proibida.O que fazer e como fazer?, perguntou numa reunião de emergência o último marxista do planeta. A garotinha tímida enroscada nas pernas magras do avô balbuciou: Chamem o geólogo. A solução pediu champanhe Cidra para comemorar, mas todo mundo ficou decepcionado porque não se ouviu  estampido de rolha. Convocaram o geólogo que trabalhava no Museu de cera da vila, dia e noite à procura do Santo sudário e os óculos de Champollion. Reuniram-se no Clube da Esquina da Rua de Cima, a sala lotada e o silêncio adormecido no peito dos presentes. O geólogo demorou para começar porque fumava cigarro de palha e ,entre cortar, enrolar, picar o fumo de corda, lamber a palha e tacar fogo de binga no cigarro, levou 47 minutos. O que ocorre, minha gente, é que a casa foi construída onde  há 15 milhões de anos havia uma mata sadia e verdejante, com bichos de todas as espécies, bananeira e limão cravo. Com o tempo, um foguinho aqui, outro acolá, a mata mingou e da antiga floresta nada mais se viu ou ouviu, porque as florestas conversam com querubins e serafins à noite. Tudo o que restou foi uma gigantesca pedra na forma de cabeça de  mula-sem-cabeça, calva, completamente calva. A casa não tinha mais baldrame e sem apoio começou a oscilar daqui para cá e de lá para acolá como o velho mastro da nau do velho do Restelo.  Mais algumas semanas e a casa virá abaixo. O que será de nós?, perguntou a velha benzedeira. Iremos para o Beleléu, afirmou com voz inflamada o geólogo. Ninguém ousou perguntar onde ficava o Beleléu.O geólogo por 4 horas e meia discorreu sobre o planeta e o Cosmo e lá pelas tantas os presentes foram beber daiquiri no bar La bodeguita.

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