Paixão impossível, plena entrega almejada

Bárbara Sukova, no papel de Hanna, no filme de von Trotta, naqueles dias, ainda bem próximos de nós, em que Eichmann foi levado de Buenos Aires para a forca.

 Luiz Roberto Benatti.

“Paixão impossível” foram os dias de encontro amoroso de Hannah Arendt e Martin Heidegger, ou, caso vocês queiram título mais intimista como o de Margarethe von Trotta, poderia ser  Hannah & Martin. Por que não poderiam eles ter feito o que fizeram, se o affair foi o canto de cisne dessa criatura desconhecida, porém destratada? Já leu Sein und Zeit? Se o fez, sabe que o precioso volume foi dedicado a Husserl, de ascendência hebraica. Não recomendo comprar por qualquer preço briga alheia. O 1º. de maio de 1933, Dia do trabalho, foi escolhido por Martin para aderir ao NSDAP/Partido nazista, por ter sido o do treino para o arrastão ,na Alemanha, na vizinhança & alhures: a partir da data, os nazistas passaram a controlar fábricas, sindicatos e bancos. Não digo que Heidegger não sentisse calor no peito ou pruridos  com o nazismo,  ou fantasiasse que  a Alemanha sairia do buraco para abrir à sua volta imensa cratera, na qual atiraria 6 milhões de criaturas, responsáveis pelas desgraças do mundo, fosse na forma de grana, fosse ao comprido da cama. Depois da guerra, como você sabe, Martin encerrou-se numa carapaça de silêncio, mas a certa altura, sobre os namoros com o nazismo, afirmou ter sido “die grösste Dummheit seines Lebens”, ou seja, “a maior merda que poderia ter sido vivida por mim” (versão meio poética). A expressão antitética – “plena entrega almejada” – o filósofo não realizou, talvez porque, antes de o fazer, tivesse acordado do pesadelo. Fiquem à vontade para tomar a cachaça de Dicta & contradicta. Prefiro a releitura de Martin Heidegger.

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