Jornalismo e liberdade

Luiz Roberto Benatti.

Censura, cesura, scizor, a tesoura corta e recorta fragmento do texto, corta, retalha o cerne do músculo do texto, o coração sangrento do texto, pois que censura, cesura escura, só conhece um caminho, o de Benito Mussolini, inscrito, gravado, marcado nos muros de Roma: al popolo solo resta una parola: obbedire. O jornal é a diária e teimosa desobediência ao interdito mesmo que para isso lhe decepem os dedos, o interdito é forma corrosiva de calar no fundo do poço mais profundo o que poderia ter sido dito, escrito e que, por isso, embrulharia o interdito em papel de jornal da antevéspera com pedra, para ser lançado no Rio Letos do esquecimento, da mentira lavada e deslavada, da palavra que perdeu fio de bigode, caspa ou pele seca para se transformar em bagaço, nada, temor, terror, como se o cardeal Frollo do corcunda de Notre-Dame ainda pudesse desmontar, encaixotar o prelo e escondê-lo embaixo da cama, atrás do vaso, na curva do beco abscôndito. Censura, cesura, scizor, a tesoura corta e recorta fragmento de texto, corta, retalha o cerne do músculo do texto, o coração sangrento do texto, pois que a censura, cesura escura, só conhece um caminho – o do decepcionante silêncio.

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