Três senhoras muito distintas

Luiz Roberto Benatti.

Elas se chamavam Hannah, Annah e Nah. Hannah e Annah eram mais altas que Nah e esse era um bom motivo para, quando saíam a passeio, levarem Nah entre ambas, como se quisessem protegê-la contra o assédio de cavalheiros afoitos. Fizesse sol ou chuva, usavam sempre a mesma roupa. Até hoje não se sabe de alguém que tivesse notado que nenhuma das três tinha braços ou pernas nem que parecessem flutuar no ar, um pouco acima do calçamento. Como não tinham braços também não tinham mãos nem orelhas. Apesar de não ter mãos, à mesa dum requintado café, serviam-se à vontade e usavam garfo e faca para cortar o pedaço de bolo do modo como mulheres educadas o fazem. Com atenção, um observador privilegiado iria notar que sua calvície, mais tarde e lá pela Segunda guerra, viraria moda nos campos de concentração. O pai delas tinha sido um banqueiro muito endinheirado da Checoslováquia, cuja fortuna virou pó e foi levada pelo vento do Rio Moldava. Smetana inspirou-se no fato para compor sua famosa sinfonia, sem mencionar que, ao ver o dinheiro sendo levado pelas águas do rio, atiraram-se do alto da ponte para recuperar o que fosse possível. Por pouco não se afogaram. Quem cruza a Ponte Carlos de madrugada jura em cruz que ouve as vozes das moças bem como o ruído das braçadas apesar de não terem elas mãos ou braços.

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