O assassino hipocondríaco

Luiz Roberto Benatti

I.

 Disseram-me: a solução para os seus problemas  pode estar próxima: vá para Brasília, onde o Chê esteve com o Jânio, aproxime-se dum sujeito influente do PMDB e empregue-se no governo. Governo escreve-se com maiúscula ou minúscula? Depende do governante: altura, peso, equilíbrio hormonal.  O senhor é parente de alguém influente? Sou tio-avô de vários deles. Nem parece com essa cara lisinha.  Tiro e queda: fim da enxaqueca, dor no estômago, frieira, taquicardia, mãos enregeladas. Fui, revólver por baixo do paletó. No primeiro dia, não fiz absolutamente nada, fiquei nervoso, picotei o jornal do superior, apertei o nariz arrebitado   da secretária. No segundo dia, deram-me um dicionário de Sânscrito para eu contar o número de proparoxítonas. Fiquei atordoado com os acentos sotopostos.  No terceiro dia, a mulher do superior telefonou e pediu motorista de talento para dar umas voltas pelo Lago Paranoá. Fui mas fiquei inebriado pelo perfume e o talento  da fêmea balzaquiana. Com meu Inglês de bolso, prefiro dizer female. Em Inglês a androginia salta aos olhos e entra pelo ouvido: male/female. As crises de hipocondria voltaram  e eu planejei detonar a torre da televisão, lembrança dos tempos de aprendizado de guerra de guerrilha na Checoslováquia. O trânsito era coisa de louco e eu confundia a Asa Norte com a Hélice Sudoeste. Fui jogar sinuca com uns caras elegantes, desses que usam óculos escuros à noite, raparam-me mil e quinhentos paus, deram-me umas porradas, tomaram-me o Taurus e eu voltei a pé para casa   porque os amigos roubaram-me  a chave. Então,  pensei: vou cursar Economia na UnB para entender para onde vai o País. Fui. Entrei na tangente. Primeira aula: o professor falou de desabastecimento, explicou que a coisa fica preta durante o processo de duração, que a salsicha desaparece do mercado e as poucas restantes vão custar os tubos.  Fiquei  nervoso porque sem salsicha não há tatu que agüente.Salsicha com polenta, como fazia a nona.  Aula seguinte: disse o mestre pós-doutorado em Harvard que se alguém    comprar bicicleta por 600 não poderá revendê-la por 250 se não a dinheirama do Tesouro nacional vai à breca e fica preta como petróleo bruto.  Na outra semana, a professorinha anoréxica de Sociologia explicou tintim por tintim que bolsa prostituição era coisa de motel fuleiro, porque, onde já se viu, professor de faculdade de Medicina fatura 800 por mês e a moça da esquina rosada leva de graça 2 mil. Aí eu concluí: ou eu mato ou eu morro.Subi no alto da catedral de Brasília e sentei-me  na parte baixa dum dos espinhos da coroa de Cristo do Niemeyer e comecei a atirar. Alvejei 36 sindicalistas que, em vez de sangue, vertiam notas de dólar. Desci para conferir e constatei que eram falsificadas. Arrumei as malas e fui para  Cuba onde as coisas estão bem melhores: agora os paus velhos dos 50s foram substituídos por outros de 55.

II.

Tenho fôlego curto e não sei encher linguíça. Entro no segundo capítulo onde começo pela linguíça. Sou sentimental. Todo assassino que se despreza é sentimental. Recordo-me com a boca cheia de saliva da linguíça que fazíamos em casa. Por isso é que falamos dos tempos em que o povo da vila amarrava cachorro com linguíça. O capado era morto ali no quintal, meu pai acertava pelo sovaco do bicho o coração e o porco grunhia e estrebuchava. Depois, abríamos o porco ao meio, de dentro tirávamos o que servia e o inservível (palavra lindíssima!). Usávamos a tripa do capado para a linguíça e da gordura fazíamos o torresmo. Por um prato de torresmo com feijão adio a execução para amanhã do morto encomendado: 3 mil paus cobro por um pé de chinelo vagabundo, 10 mil vale um refinado colarinho branco. Nunca apareci em Notícias populares, jamais fui fotografado por jornalista ávido por fãs de crimes cobertos de creme e escarola. Batem à porta, tenho de interromper a narrativa, mesmo porque ainda continuo a penar com o mal uso do xp. Não abro a porta sem ter à mão o velho berro. No terceiro capítulo falarei de minhas memórias etílicas e do alambique do meu avô Caco Velho, calabrês nervoso. [Gostaram da máquina de moer carne usada na confecção da linguíça?]

Entreato sobre o que há pouco omiti:

IIa.

Antes que as sucessivas crises de enxaqueca fizessem de mim um sujeito disposto a arrebentar o reboco da Pensão da Véia, na Major Sertório da Capital, frequentei as aulas de Filosofia da USP/Maria Antônia. A jovem mestra punha sensualidade até mesmo no giz sinuoso e tracejante na lousa. Ela não gostou de minha barba por fazer. Na primeira prova levei zero, além de ouvir uma pancada de risos da classe porque a doutora me disse que  dava zero porque não poderia dar nota negativa. Furei os 4 pneus do pau envelhecido dela e queimei as provas corrigidas que ela deixou no banco.Escrevi com um amigo do peito o ensaiozinho zerado que, por respeito ao leitor, transcrevo a seguir:

O Fim do Conhecimento

Zenão de Eléia, apontado por Aristóteles como o criador da Dialética, pensava por paradoxos, não com o propósito de  desmentir idéias que se veiculavam naqueles dias, mas com a intenção de mostrar como nelas se embutiam absurdos de toda ordem. Se Zenão e Aristóteles tivessem conhecido Carlos Drummond de Andrade e o teorema da Incompletude de Kurt Gödel, saberiam muito mais desses absurdos e  suas respectivas relatividades, posto que, obrigatoriamente, não há caminho entre as idéias sem  pedra no meio! E ainda: no “final” do caminho, veriam que a via  encontrava-se “incompleta”. Certamente, e ainda no campo do Conhecimento/Dialética, Zenão e Aristóteles ficariam atarantados ao  defrontar-se com expressões como: “a presença da ausência e a ausência da presença”; “o fazer saber e o saber fazer”; “o penso onde não sou, e sou onde não penso”; “digo sempre a verdade, porém, não toda…”; “é fundamental repensar-se o pensamento, continuamente”. Mas ainda naqueles dias tão longínquos de Zenão, ao refletir sobre Zeus como criador de mundos, ele afirmou que sua manifestação ou presentificação nas coisas era comprovada pela forma esférica, porque somente essa era capaz de abarcar o existente. Nos dias que correm em nosso País, a defesa da forma plana para o nosso pequeno mundo, feita em nome do anti-agnosticismo , opõe-se ao pensamento de Zenão, ao afirmar que no achatamento das coisas, portanto numa certa quadratura, manifesta-se o divino. Com o divino, tudo o que foi dito fica destruído por uma verdade absoluta, única e, sobretudo, intangível; não há mais  pedra  nem  caminho entre as idéias (Dialética). Aristóteles havia nos lembrado que a Dialética era esse caminho entre as idéias e que por suas veredas alcançaríamos o Conhecimento, que se assenta na contraposição, de modo tal, que, a uma dada tese, o interlocutor respondesse com sua antítese, até alcançarmos a síntese, a partir de cujo ponto outras antíteses seriam lembradas como elemento de contradição. Da Discussão nasce a (sempre incompleta!) Sabedoria! Dito isso, e lembrados das idéias circulantes na mídia, nas redes sociais ou nas proposições de governo, teremos de distinguir contraposição dialética de absurdos ou desarrazoados gritados em favor da desconstrução do Conhecimento: se a escola é via universal de transmissão de conhecimento, não podemos desorganizá-la; se a aposentadoria é o coroamento duma vida dedicada ao trabalho, não deveremos dramatizar (leia-se, ficar histérico com) o merecido ócio com a expectativa de um dia-a-dia precário. Kant e Bacon negaram à Dialética a certeza de que ela poderia conduzir-nos ao conhecimento, ao afirmar que, por sua subjetividade, ela nos levaria de fato a um tipo de ilusão sobre a vida. Kant, Bacon e Descartes deixaram escapar os conceitos de Incompletude e da eterna presença de “uma falta”, sempre. Passa a valer somente o método e não mais o objeto da ciência. Kant teme o Conhecimento (um saber de si) — temor não sabido. Com Kant já não há mais aquele cosmo bondoso e harmonioso conjugado à natureza-mãe  provedora. Perde-se um pouco a busca do “para onde vou?!”, substituída por “o quê faço aqui?!”. Além disso, fica implícito que ninguém é bom porque quer… a autonomia sofre inúmeras distorções endógenas e exógenas. Como todo grande gênio, o psicanalista francês Jacques Lacan juntou Kant e Sade, o marquês, em seus estudos (Kant com Sade), mostrando que o avesso de Kant é nada mais nada menos que o próprio Sade, ou seja, não há imaculados! Do mesmo modo, Kant era a imagem especular de Lacan; um espelho (poderia refletir algo semelhante a”O Médico e o Monstro”) trancado a sete chaves.

Qual é, enfim, o perigo do Conhecimento? O que este esconde de tão “ruim” para o ser humano? Resposta: o horror. Algo eternamente misterioso, não sabido, incompleto, sempre com a presença terrível de uma falta. Anulando-se magicamente tudo isso (a ultra-extrema-direita é perfeita nessa arte), resta o Divino com a nossa forte presença de “Tementes a Deus”, e não a de “Amigos de Deus” e, assim, a presença do desconhecido perigo mortal: a dispensa do sofrimento de se pensar o pensamento.

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