Havana para sempre

Luiz Roberto Benatti.

Entra ano, sai ano, Havana continua a mesma. Nenhum traço da psicose paulistana: em SP, você passa pela rua do mês passado e não a reconhece, porque os velhos prédios foram removidos por caçambas para o depósito de entulho.

Havana é sempiterna, com a vantagem de ali ensaiar-se o socialismo futuro: nada nesta mão, nada na outra , mas tudo no coração, onde residem Fidel e a esperança.

Curioso como o realismo fantástico de Fidel, ao contrário da genuína vocação para o sonho de Guevara, avaliza no peito dos cubanos o direito de acalentar a mudança. Mudar-se o quê? Mudar-se para onde? Não, não, não, definitivamente não. Não me bandeei para a direita.

Adoro Havana, mas estou picado com o comandante que, nos últimos anos, não me enviou os aromáticos charutos .Vou reclamar com o amigo comum Luís Inácio. Por revide, não lhe mandei cachaça do Santo Mário.Olho por olho, nariz por nariz, paladar por paladar.Havana tem cheiros, é uma cidade viva, como a aromática Ouro Preto. Comida e salsugem.

Em Havana, o comércio informal sai do interior das casas e vai para a rua: armado de facão para mais de metro, o negro abate porções das partes semitalhadas  do suíno deitado numa tábua, velha balança ao lado. Sentado no selim duma padcabe coberta por um tetozinho de nada, o rapaz aguarda o cliente como se pedalasse um riquixá indiano.

As crianças se multiplicam por força da sensualidade fora de controle governamental  que, em Havana, vai-se deitar camonianamente quente para acordar suada e  chamejante. No chão e sob velha marquise, dois meninos disputam uma partida de xadrez, num país de longa tradição enxadrística. Você não faz idéia da quantidade incrível de vendedores de sanduíche na cidade!

A farmácia é velha como tudo o que é velho na cidade: poucos fármacos à venda, nada de perfumaria e um cartazinho à moda de José Serra: “Gracias por no fumar”. O táxi tem chapa enferrujada:HGY 263, pendurada num valente Oldsmobile da década de 50.

Há muitos alfarrabistas em Havana, como os do Rio Sena, em Paris: os volumes encadernados em couro de porco pertenceram a um miliardário norte-americano que deitou fortuna na mesa de jogo, perdeu as calças, embebedou-se e, às três da manhã, foi conduzido aos trancos e barrancos para o quarto pobre de encantadora cubana.

Quando o ex-ricaço costurou-se no paletó de madeira, ela vendeu a preço de banana os preciosos volumes para o alfarrabista.  A mulata continua a cruzar a praça e arrasta os olhares com a generosa microssaia. À noite, você poderá ouvir a música  executada por negros gordos passados dos 50 no Buena Vista Social Clube e, no próximo poente, assistir ao mergulho do sol no oceano em frente do Malecón.

Nenhuma hecatombe desencadeada por Trump algum destruirá Havana.

Apesar de Fidel estar infiltrado em cada desvão de prédio ou viela cubana, faço ao leitor uma confissão que, por certo, será negada de pés juntos por filhos, netos e bisnetos da Revolução Cubana:o maior de todos os heróis revolucionários latinoamericanos foi o negro François-Dominique Toussaint Louverture, governador de São Domingo, nome antigo do Haiti.Toussaint lutou contra o poder colonial e libertou os negros do trabalho escravo. Viveu 60 anos, dez menos que os 50 de poder do comandante.

Saludos, mi capitán!

[Iniciou-se há pouco a demolição de parte da velha Havana, graças à intermediação do papa e Obama.]

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