Pelo repetido uso do vocábulo, seríamos um país de criaturas melancólicas

Luiz Roberto Benatti

Além das caspas e do terno funerário, amávamos Jânio Quadros por seu imenso saber revelado em preciosos vocábulos. A massa o acompanhava. Em Catanduva, a multidão preencheu a Rua Rio de Janeiro e deslizou pela Brasil. Noutra ocasião, ele lotou o Cineteatro República. A única palavra que ele deixou escapar de nosso sermo vulgaris decantado por Bandeira foi barnabé em quem ele apontava o cancro do serviço público. No fundo de nossa imensa tristeza tropical, adoramos as palavras difíceis e quando por elas torcemos o nariz é apenas para revelar que elas só deveriam ser ditas ou escritas por doutos. Você poderá dizer de sua namorada que ela está tristonha mas não merencória. Merencória é coisa do Ari Barroso na Aquarela do Brasil, mineiro refinado de Ubá. Nos dias que correm, com a gripe, poderíamos dizer que ficamos uma vez mais merencórios, como noutros tempos estiveram Raimundo Correia, Bilac, Drummond ou Hilda Hilst nOrfeu emparedado. Euclides da Cunha, refinamento extremado, escreveu: E prosseguem, em ordem,lentos, ao toar merencório da cantiga que parece acalentá-la. A boiada só anda se a música for soturna, tristonha, merencória, como a Lua dos namorados de Vinícius de Morais.

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