O nome do lugar

Luiz Roberto Benatti

Calcula-se em 10 milhões o número de pessoas mortas na grande seca de 1876 a 1879. O teatrólogo alemão Bertold Brecht afirmou que, a ceifar tão elevado número de vidas de uma só vez, desastres naturais como a seca acabam por encontrar irônica solução para a escassez de víveres determinada pelo Capital predatório. Com a morte da criatura humana, pressupomos, o problema crucial de garantir-lhe emprego na máquina capitalista desaparece.

A miséria é contraparte da riqueza e o progresso. Resultado negro, cujas cinzas foram varridas para debaixo do tapete da expansão capitalista do século XIX. O Iraque de nossos dias sabe de cor e salteado que a desgraça não terminou.
O Brasil foi vítima de estiagem medonha que devastou Java, Nova Caledônia e África. Os “Sertões” de Euclides da Cunha devem-se ao seu gênio e à grande seca do século XIX.A mãe de Catanduva é um animal de úberes ressecados até que deles só restou pó e desesperança. O diabo trabalha para o Capital.
E não teria sido a seca, por ventura, a estimuladora da migração das famílias Figueiredo, Rodrigues, Borges da Costa e outras, totalmente esquecidas, para a futura vila do Cerradinho?
Aprendemos com as formigas: é só seguir em frente: pelo sul de Minas, na direção de Barretos, até os altos do São Francisco, com o propósito, primeiro, de sobreviver ao estio infernal; e, depois, fugir à maleita, ao tifo e ao paratifo do pantanoso São Domingos – foram essas a estratégia e a trilha seguidas. Se isto for verdade, traduzir da Língua tupi o topônimo Catanduva por “terra do mato ruim” é contrassenso e invenção lingüística sem pé nem cabeça.
O solo não era e não é ruim, mas adusto ou calcinado, como registrou Euclides da Cunha n”Os Sertões”, sobre a caatinga. Euclides sabia das coisas.
“Calcinada pelo sol rubro do verão muito prolongado” é o nome alongado de Catanduva. Menos aquecido, porém acalorado o bastante, esse sol irá favorecer o espantoso florescimento do café procedente das areias quentes do Saara. Todavia, essa é uma outra história. Quente não é estéril.Catanduva não é conteúdo , mas continente; não é o solo, mas o que nele nasce. Catanduva pode ser vista, cheirada, palpada, tombada, serrada, cubicada. Catanduva é o angico, leguminosa encontrada na maior parte do território brasileiro e de crescimento espontâneo. Como a acácia mimosa, a aroeira, a goiabeira, a bananeira, o mangue-vermelho e o barbatimão, dentre outras, ela contém tanino que, na indústria, transforma a pele do bovino ou do suíno em couro. Ao longo do Rio São Domingos poderiam plantar alguns milhares de tem para catanduvas, quer dizer, de angicos, e, talvez, investir, mais tarde, na indústria de plástico ou cola. Se você quiser ir para frente, recue dois passos e pergunte à História o que é que ela para  lhe dizer.

[Com a proximidade do centenário da cidade, favor inestimável que prestaríamos a nós mesmos seria atirar no lixo o falso significado de Catanduva. Catanduva é o nome indígena do angico, e o café, que nos deu musculatura econômica até os anos 60s, não medra em terra ruim, porque a planta carece do minério de ferro procedente do basalto de origem vulcânica.Na p. 103 de João Abade, de João Felício dos Santos, o professor de História ou qualquer cidadão interessado lerá:”Dentro da neblina, os soldados de Febrônio não distinguiam de onde vinha tanto estalido de galho seco nas catanduvas que se perdiam pela várzea sem fim”. Por acaso, algum mato ruim se perde na várzea?]

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