O extravio da bandeira nacional: leitura semiótica

Lúcia Santaella


Vem ocorrendo um fenômeno de lesa pátria ao qual não estamos dando a devida atenção devido à conturbação, ao turbilhão de crises que nos assolam: sanitária, econômica, política, crises que se sobrepõem e se entrecruzam indissoluvelmente. Isso aumenta a potência das nuvens sombrias que fecham os horizontes de nossa compreensão. Esse fenômeno se chama extravio, para usar um eufemismo, pois poderia também ser chamado de roubo, da bandeira nacional, extravio do uso da nossa bandeira.
Uma análise semiótica, mesmo que superficial, pode colocar a nu as consequências pragmáticas, os efeitos sensíveis desse roubo, nos três níveis mais simples do funcionamento de todo e qualquer signo, o icônico, o indicial e o simbólico, todos os três submetidos a um roubo sociocultural com implicações psíquicas que vazam para os extratos inconscientes e afetam os nossos modos de sentir a pátria. No caso a ser analisado abaixo, sem resvalar para qualquer cinismo de receituário moral e cívico, o extravio está provocando um sentimento de aversão por uma bandeira que deveria ser de todos, um direito de todos, e que foi usurpada para o uso de alguns.
A leitura poderia ser bem mais aprofundada, mas serei breve. No nível icônico, nossa bandeira, como todas as outras, é feita de formas e cores combinadas em uma composição sui-generis, ou seja, que lhe dá identidade e especificidade. Mas para a leitura icônica, temos que abrir tanto quanto possível os nossos sentidos, nesse caso, o sentido da visão. O que temos diante de nós são as cores que esvoaçam ao vento, nas bandeiras hasteadas. Por isso, elas são feitas de tecido, para serem desfraldadas e exibidas no alto, ou carregadas em mastros, sobre nossas cabeças, nos movimentos que o vento lhes dá. Assim, as cores, puras cores, as cores em si mesmas, sobressaem. Há bandeiras que poderiam fazer uso das mesmas cores, mas a composição teria que ser distinta pois, cada bandeira, assim como a impressão digital do nosso polegar, funciona como uma impressão digital, inconfundível, de cada pátria. No nosso caso, as cores são significativas, o azul lembra o esplendor do azul do nosso céu, a gratidão que devemos ter por esse azul que brilha com tanta frequência sobre nossas cabeças. O verde lembra a mata, as majestosas matas cuja biodiversidade provoca a inveja de outras nações e o sentimento de horror quando testemunhamos as queimadas e as cicatrizes que elas deixam no solo em sofrimento. O amarelo é o sol, o brilho do sol, o calor do sol, a luz do sol iluminando nossos dias. Por fim, o branco sugere a paz. Poderia haver composição mais significativa, não fosse o texto verbal que, infelizmente, atravessa e fere a iconicidade da bandeira com uma expressão verbal e simbólica – “ordem e progresso” — que, além de marcar a bandeira com uma insígnia positivista, no atual curso da vida, parece estar adquirindo o papel de paródia da condição brasileira, como, de resto, à semelhança de muitas outras conjunturas passadas, mas nunca com tanta ênfase. Passemos ao nível indicial.
O nível indicial é o nível dos contextos em que a bandeira é utilizada, a iconicidade acima esboçada passa a funcionar como marca, insígnia, como um dedo apontando para esta pátria específica, a nossa, a pátria brasileira. Portanto, nesse nível, os lugares específicos no tempo e no espaço em que a bandeira é utilizada adquirem significados adicionais. A bandeira a meio mastro, a bandeira hasteada ou carregada em coordenação com outras, como em jogos olímpicos, copas do mundo etc. ou a bandeira exibida in solo, como em situações de celebrações nacionais, são todas elas situações existenciais em que a bandeira diz a que veio. Ela está lá para lembrar, em cada situação, que temos uma pátria e que a bandeira, parte para o todo, lá está, ocupando aquele lugar para indicar que a pátria como um todo ali está presente. Neste nível indicial, o extravio do uso por grupos aficionados a pessoas ou grupos, rouba, simplesmente rouba de nós, brutalmente rouba, cruelmente rouba de nós tanto a singeleza icônica da bandeira quanto as situações legítimas de seu uso. No nível indicial, assistimos, portanto, à corrosão dos valores de representatividade simbólica da bandeira, senão vejamos.
Quando se trata das bandeiras nacionais, os níveis icônicos e indiciais estão subsumidos pelo nível magno desse tipo de signo que é o nível simbólico. Símbolos são signos de lei. A bandeira encarna uma lei de representação, legitimada simbolicamente pela convenção social, uma espécie de tesouro abstrato a ser guardado no fundo do peito de cada cidadão. É por acaso que colocamos a mão no coração quando ouvimos o hino nacional? Isso nada tem de piegas. Trata-se da situação em que, sem nem mesmo saber por que, aquele símbolo fala ao nosso coração, o coração da nossa brasilidade. É nesse nível, o do simbólico, que o extravio, o roubo, a corrosão do valor nacional da nossa bandeira passam a adquirir o estatuto de um crime contra a nossa nacionalidade.
Sim, neste momento em que choramos, a cada dia, o número de mortos que passam pelas tiras que correm bem abaixo das cenas televisivas que arrepiam a nossa alma, também nos vemos submetidos ao choro da perda do ícone, do índice e do símbolo de nossa bandeira, não mais nacional.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.