Guardiães da torre contra as tropas de Isidoro

Luiz Roberto Benatti

Em 5 de julho de 1924, há noventa e cinco anos, portanto, o general Isidoro Dias Lopes sublevou-se em SP contra o governo federal de Arthur Bernardes. Com esse gesto cheio de ousadia para um militar de muitos anos, Isidoro ajuntou-se a Luiz Carlos Prestes, numa adesão muito significativa para o sucesso da movimentação pelo Brasil da Coluna Fênix, a seguir chamada de Coluna Prestes, por trás da qual estavam a revolta dos tenentes e a velha luta contra o regime antigo. CTV aderiu a Isidoro, portanto (quem diria!) ficou ao lado de Prestes. Representante da oligarquia agrária, Arthur Bernardes foi para a presidência da República em 1º. de março de 1922, com 460 mil votos, contra os 320 mil dados a Nilo Peçanha. Com Peçanha, estavam o Rio Grande do Sul, a Bahia, Pernambuco, o Rio de Janeiro e Catanduva, na época politicamente avançada. A vigorosa oposição a Bernardes levou ao levante do forte de Copacabana. O gesto de aderência a movimento progressista, de nossa parte, só se repetiu com Jango Goulart, todavia, é bom que se diga que, logo a seguir, aninhamo-nos no colo dos militares da ditadura militar de 64. Catanduva mantinha-se em sintonia com os fatos políticos mais importantes do País. Todavia, em razão do medo de ver a cidade invadida e saqueada por tropas rebeldes, ou então pela desinformação política do administrador, o prefeito Nestor Sampaio Bittencourt, como se fosse grande estrategista militar, nomeou Guerino Solfa, ex-combatente italiano da campanha de Trípoli, e Ettore Bertelli, guardiães da cidade e a ambos incumbiu de permanecer na torre da igreja de São Domingos, armados de binóculo, a fim de avisar à comunidade a aproximação dos soldados de Isidoro. A campanha de Trípoli ou a guerra ítalo-turca ocorreu em 1911/1912. A Itália venceu a batalha colonialista e tomou o Norte de Trípoli. Como ex-combatente Solfa devia reinar diante do vinho, a cerveja e os admiradores com suas narrativas. A torre da igreja era baixa, “como os sonhos municipais de cada um”, disse Drummond em “Pombo correio”. Por onde viriam Isidoro e seus homens? A vila era feita de manchas de tijolo, saibro e madeira espalhadas pelo São Francisco, Higienópolis e Vila Motta, quer dizer, a parte imperial da localidade; a par de outras, localizadas ao redor do Largo do café/Praça da República, onde estava a cidade nova ou republicana. Seria trágico se de fato não tivesse sido hilariante! Como continuasse agitado e cheio de dúvidas, Nestor Bittencourt pensou também em proteger o curto e suado dinheirinho do erário público: deu ordens ao tesoureiro José Moratto de Carvalho para amoitar 50 contos de réis no forro da casa de Fioravante Senise, sócio de Moratto no bar F. Senise & Moratto do Clube 7 de Setembro. Para enganar Isidoro largaram uns trocados no caixa da prefeitura. Como vêem, Fellini circulou por Catanduva. Essa inocência nós a perdemos: zelar pelo paupérrimo erário da vila e escondê-lo num forro de estabelecimento comercial são gestos de antanho perdidos para sempre. Foi essa a primeira e última vez em que igreja e boteco consorciaram-se para proteger-nos contra a dilapidação de imprevisíveis invasores. Cada época cultiva ou exorciza os próprios fantasmas.

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