Natureza e cidade: o primeiro cemitério do Cerradinho

Luiz Roberto Benatti

Há mais ou menos 150 anos, não era do interior do automóvel que víamos a Natureza: ela não era cambiante e muito menos idílica, porém hostil. A carne de vaca era escassa e suas partes eram divididas com os colonos de acordo com o número de membros da família. Salgavam-se as porções a seguir penduradas em varal. As porções das carnes suínas eram guardadas em banha numa bilha de cerâmica. Você erguia a casa de pau a pique com  o entrançamento de barro, lascas de bambu e nichos onde o barbeiro tinha a descendência. Os candeeiros eram alimentados por sementes de mamona trituradas até que o óleo mais ou menos viscoso pudesse ser retirado do fundo do vaso. As camas  eram sustentadas por forquilhas e o colchão era recheado de palha de milho.  Se quiséssemos nos deslocar do Ribeirão dos Porcos para o local onde hoje nos encontramos, tínhamos de enfrentar a dura caminhada  a pé ou, quando fosse possível, no lombo do cavalo. Nesse caso, você não se achava diante da Natureza como o diretor do filme que, sentado numa cadeira, de olho na câmera, escolhe o melhor ângulo  gritado pelo megafone no set de filmagem. Naqueles dias tão distantes, você rasgava a facão trechos  da mata, esfolava-se nas pedras, encharcava-se até o peito nas águas barrentas do córrego, e, à noite, com a friagem, acendia o fogo até adormecer. Agora, sim, você se parecia, fora do filme, com o vaqueiro. Por isso, temos nós de ler os viajantes de outrora, como o Visconde de Taunay, cuja minuciosa descrição da paisagem  nos revela que o território do Éden onde estavam Adão e Eva era bem mais denso do que poderíamos imaginar. O viajante alemão Carl Friederich von Martius  caçou e comeu anta ao percorrer o sertão mineiro: “Nos capões procurávamos, com o auxílio de alguns caçadores profissionais e de seus cães bem amestrados, caça grande: caitetu, veado, onça e anta. É muito agradável a caçada a esta última, pois não tem perigo algum. Alguns caçadores postam-se nas várzeas do mato por onde as antas costumam passar, saindo dos brejos próximos. Cada um toma posição junto de árvore de tronco forte, atrás do qual possa esconder-se, se o animal correr justamente ao seu encontro, e ali espera a anta, que, assustada por alguns tocadores e pelos cães, toma pelo seu habitual caminho do mato.(…)Tivemos a sorte de matar duas antas grandes em um dia, e de capturar uma cria, para amansar”.

Os significados dos nomes hebraicos do casal do Gênesis aproximam-nos da Natureza ao mesmo tempo em que dela nos afastam como se não passássemos de figuras pelas  quais o meio natural pudesse tomar consciência de si mesmo e se  ver: Adão é a terra vermelha, Eva a barragem. Releiam Inocência de Taunay: “Ora é a perspectiva dos cerrados (florestas de arbustos de três a quatro pés de altura mais ou menos, muito próximos uns dos outros), não desses cerrados de arbustos raquíticos, enfezados e retorcidos de São Paulo e Minas Gerais, mas de garbosas e elevadas árvores que, se bem não tomem, todas, o corpo de que são capazes à beira das águas correntes ou regadas pela linfa dos córregos, contudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a força da seiva que as alimenta; ora são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa grama, toda salpicada de silvestres flores; ora sucessões de luxuriantes capões (mato redondo), tão regulares e simétricos em sua disposição que surpreendem e embelezam os olhos; ora, enfim, charnecas meio apauladas, meio secas, onde nasce o altivo buriti e o gravatá entrança o seu tapume espinhoso”. Era mais ou menos essa a paisagem do Cerradinho, acrescido o fato de que a topografia desenhada por  talvegues (encosta acima, encosta abaixo, riacho, como se triângulo formassem)  deu à futura vila pirambeiras elevadas ou rebaixadas de sofrido acesso, como eram os casos das ruas XV de Novembro ou 7 de Setembro. Acrescente-se à macega numerosa, o enorme charco do Rio Japurá cuja extensão de água barrenta ia dos fundos da rodoviária ao Corpo de bombeiros. CTV é cardial e cruel. A vida era tão precária, que, por volta de 1890, como o povoado não tivesse  cemitério nem capela, o morto era trasladado em lençol preso a um varão conduzido por dois homens para São Miguel, pelos lados da futura Cajobi, distante umas 8 léguas, ou então era enterrado  ao pé duma árvore. O pároco local, José Bento, disse ao senhor José Lourenço Figueiredo que o povoado precisava localizar  terreno para o cemitério e foi o que fizeram na metade do quadrilátero das ruas Brasil, Recife,  Maranhão e Aracaju (onde Minguta foi enterrado), cuja porteira de entrada devia estar mais ou menos na extinta  Casa Pinotti. Foi esse o primeiro cemitério do Cerradinho.

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