Ulysses

A

Homero está sentado na ponta de uma pirâmide e coroado (com louros) por 
um anjo cor-de-rosa. Ao fundo, o perfeito frontão de um templo, sustentado por 
colunas jônicas. Tudo isto contra o alvorecer (ou o entardecer?) de um dia imóvel.
A base da pirâmide é formada por uma caterva de intelectuais franceses, entre 
os quais um delicioso Molière, que exibe o rosto literário mais bonito da história. 
Boileau sente a solenidade do momento e impõe respeito aos passantes. 
– As perucas que usavam naquele tempo, tens razão, parecem-se mesmo a 
corvos. E quem é aquele lá?
Não sei. Ronsard, Froissart. 
Ou o Barão de Münchhausen. A quantas falsidades não ficam expostos os 
artistas quando representados? Por isto Homero está cego, como Borges ou a Justiça. 
Melhor assim, noli lhe tangere. E não percebe que representaram osdedos de seus pés, 
gordos e potentes, como uma dezena de falos em repouso.
Feto, larva, mito, filho, Ulisses vive em seu peito: uma tatuagem a fogo, igual 
as que ornam torsos de marinheiros nos cinco continentes e mandada fazer, talvez, 
num humilde bordel do Pireu. Neste ato, vendados estão os demais outros: ninguém 
percebe a marca persistente, da qual o sangue não pára de escorrer.


B

Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado. 
Mandei me amarrassem ao mastro central do barco; só assim veria e ouviria coisas 
que homem nenhum sobreviveu para narrar a seu biógrafo. Programada é minha 
infelicidade; a realista cicatriz que trago no rosto dará consolo a Auerbach –neste 
universo nada se cria, tudo se transforma, ou pelo menos esta é a bíblia dos críticos 
literários–. O barco desfila diante de sereias como se icebergs. 
O porto não existe, não passa de um happy-end. 
Homero, tão hábil, ver nunca atinou que Ninguém é meu exato nome.

C

– E aquele ali? 
– E aquilo lá? 
– E isto aqui?
Quem sabe. Verdadeiramente te importa, e porque? Não te bastam as estrelas, 
uma pirâmide de vrais génies inoubliables, o peso da noite? Pois bem, afirmaste aos 
quatro ventos meu ceticismo, meu “niilismo” virou conversation piece, teu 
pedantismo crucifica, a mim atribuíste a culpa. Ato seguido, foste expiar-te em outro 
texto, sei lá, em Leiria: sim, em Leiria, e topaste com outro vagido fragmentário, 
outras interrogações. 
E agora caminhas insaciável pelo museu.
– E esta sombra, que significa?

Nada

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