O CEMITÉRIO MARINHO.

versão de Bruno Tolentino.

Teto tranqüilo em que caminham pombas,
palpitação entre o pinhal e as tumbas,
ó mar recomeçado tanta vezes!
O meio-dia afina um fogo lento
e, recompensa após um pensamento,
o olhar se alonga sobre a paz dos deuses.

Um tear de relâmpagos consuma
diamantes rapidíssimos de espuma
e uma vasta quietude sela o abismo;
da causa eterna a pura tradução,
cintila o tempo e o sonho ascende então
a uma sabedoria de algarismo.

Firme tesouro, ó templo que a Minerva
ergues massas de calma e de reserva,
água inquieta e Olho cintilante,
cortinado de chamas sobre o sono,
ó meu silêncio!… Edifício sem dono,
Cumeeira de ouro, Teto arfante!

Templo do Tempo, inteiro num suspiro!
Tão alto subo sobre o que admiro
que meu olhar marinho é pouco humano:
um vasto sacrifício sobre a lousa,
tudo quanto cintila ascende e pousa
sobre a altitude um desdém soberano.

 Como o fruto transmuda em gosto a polpa
e a delícia em ausência numa boca,
morre a forma e mal dura o seu sabor.
Aqui sorvo o devir que sou, fumaça,
enquanto canta o céu à alma que passa
transfigurando as margens em rumor.

Ó belo, ó verdadeiro céu, aos poucos
vou mudando: do orgulho que há nos ocos
de uma indolência cheia de poder,
vou-me entregando ao teu brilhante espaço,
sobre a mansão dos mortos pairo e passo,
a sombra fragilíssima do ser.

E, a alma exposta às tochas do solstício,
sustenho-te o admirável edifício,
ó justiça da luz, cruel espada.
Reconheço a pureza que te cabe,
olha-a! Só que louvar tão claro sabre
supõe da sombra uma porção calada.

Só para mim, comigo apenas, perto
das fontes do poema, oscilo incerto
entre o vazio e o vir-a-ser mais puro;
aguardo os ecos da grandeza interna,
sombria, amarga e sonora cisterna,
o oco dentro da alma, ainda futuro.

Falso cativo das folhagens, mar
que róis ferralhas, entre o meu olhar
e a pálpebra uma brasa me procura;
vem falar de ossuários, vem da cinza
essa fagulha viva, e não precisa
dizer mais: são meus mortos que murmuram.

Sacro, onde um fogo-fátuo em fragmentos
ergue à luz seus terrenos ligamentos,
gosto deste lugar: archotes fulcros
de pedra e ouro sob tantas árvores,
tantas sombras dormindo sob os mármores,
e tu, mar, cão fiel junto aos sepulcros.

Cão esplêndido, espanta a idolatria!
Onde o zagal sozinho passa o dia
a apascentar seus mortos, seus cediços
carneirinhos de mármore em teus flancos,
afugenta essas pombas, esses brancos,
altos sonhos, e os anjos metediços.

Aqui até o futuro se espreguiça.
O inseto raspa a nítida caliça
e tudo arde e some no infinito
rumo à severa incógnita da essência…
Vasta é a vida bêbeda de ausência,
doce a amargura e límpido o espírito.

A morte disfarçada em cemitério
aquece e oculta os mortos e o mistério,
enquanto um sol no alto azul em fuga
pensa-se e se convém em pensamento.
Cabeça exata de um coroamento,
sou eu o vinco em tua testa, a ruga,

só tens a mim para conter-te o medo,
dúvidas e remorsos a que cedo
põem a falha em teu plácido diamante…
E eis que, noturno, um povo sob os mármores,
rente às raízes úmidas das árvores
associa-se a ti, inquietante;

ele é feito da ausência mais espessa,
a argila escureceu cada cabeça,
o dom da vida foi passando às flores…
Onde agora expressões familiares,
artes íntimas, almas singulares?
A larva fia onde escorriam dores…

E o gritinho feliz das raparigas,
os olhos sob as pálpebras amigas,
os seios brancos a brincar com o fogo,
o sangue entre os beicinhos de uma dádiva,
o último dom lutando com a mão ávida,
tudo vai sob a terra e entra no jogo.

E tu, minh’alma? Esperas algum dia
um sonho mais real que a fantasia
que onda e ouro colorem por aqui?
Cantarás quando fores só vapor?
Ou vês que tudo foge, que aonde for
vai morrendo a impaciência que há em ti?

Magra imortalidade do ouropel
na escuridão, horrível teu laurel
quer da morte fazer seio materno.
Piedosíssimo ardil, bela mentira!
Quem não recusa o crânio quando expira
o que sorria, quem não teme o eterno?

Arcanos pais, cabeças no regaço
da terra a que sustendes todo o abraço,
confundis nosso passo! O roedor,
o verme irrefutável não é vosso,
vós dormis: ele é meu, vive em meus ossos,
não me deixa dormir de tanto amor!

 Seria amor ou ódio? Só é certo
que seu dente fatal anda tão perto
que qualquer nome lhe convém, que importa!
Minha carne lhe agrada, em minha cama
sou dele porque vivo e ele me ama
e vê e quer e vem tocar-me à porta!

Zenão, cruel Zenão, Zenão de Eléia,
tu me feriste com o harpão da Idéia,
esse vôo hipotético no ar:
ardo em música e o dardo me atravessa,
solar, a tartaruga não tem pressa
e Aquiles corre sem ultrapassar…

Não! Não! De pé! Nas eras sucessivas
rompe as formas, meu corpo, e que enfim vivas!
Bebe, ó meu peito, de onde o vento nasce!
Um frescor vem do largo a devolver-me
a alma, o sal, a força… Cala, ó verme!
Espatifa-te, ó onda, em minha face!

Tùnica salpicada de buracos,
mar, pele de pantera sob os cacos
de milhares de ídolos do sol,
carne total e ébria, hidra turquesa
mordendo a própria cauda, ó correnteza
em tumulto e ao silêncio em tudo igual, ergue-se o vento! À vida! À vida! À vida!
Lufadas viram a página mal lida,
voltam das pedras jorros magníficos,
voa, meu belo livro! E, onda a onda,
estilhaça-te, ó cúpula redonda
em que as focas da luz afiam os bicos!

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