Álbum de recordações da guerra [1914-1918] (2ª. versão)

Luiz Roberto Benatti

Se a vida, como escreveu Manuel Bandeira, “nos chegava pelos jornais”, e, se jornais não havia entre nós, a vida, de fato, achava-se distante, do outro lado do Atlântico, e estávamos irremediavelmente longe dela. Não se tratava da vida de todos os dias – acordar, ir para o trabalho -, mas do movimento, a balbúrdia, os grandes gestos, o enfrentamento do inimigo, a bravura, o fuzil, os estampidos enlouquecedores, a chuva intermitente nas trincheiras infestadas de ratos, o medo do lança-chamas. A Grande Guerra, rápido, desatualizou os temas novos, porém aquecidos, debatidos pela Internacional Socialista, com Jean Jaurès, Rosa Luxemburgo, Klara Zeitkin, Karl Liebknecht, Karl Kautsky, fazendo com que triunfassem as proposições conservadoras de Eduardo Bernstein. Até 1914, a classe operária, adestrada na luta, azeitara a correia de transmissão do socialismo marxista contra os curtocircuitos dos capitalistas em favor da batalha mundial e o conseqüente acúmulo de lucro. Com o fim da guerra, o capital burguês, sobrevivente e assanhado, pôde voltar a dormir o largo sono dos injustos, uma vez que aquelas criaturas lúcidas, porém incômodas, do velho marxismo estavam mortas e o movimento operário quase em frangalhos. Enfim, as condições do terreno haviam se tornado inteiramente favoráveis à semeadura dos vários fascismos. Como a Primeira Grande Guerra não pôde vir até nós nem nós soubemos, como Hemingway, ir até ela, talvez possamos passar os olhos pela presente coleção de fotos escolhidas, não para assustar-se ou enojar-se, mas para comprovar que a Grande Guerra foi a derradeira das batalhas líricas; que ela se processou na imensa zona rural da Europa e que, por mais incrível que pareça, tais cenas estavam bem próximas de nós (entrevistas da janela da cozinha de fogão de lenha), desde que aceitássemos trocar enxada por fuzil, chapéu por quépi, trincheira por sulco aberto na gleba, arado por canhão, gás mostarda por tifo. A Grande Guerra desenhou-se segundo certo cotidiano jamais recuperado: ela pôs fim à aparência de vida singela, ao mundo das trocas locais, ao bacalhau pendurado num arame na porta da venda, à manteiga feita em casa, aos pequenos favores, à rica proximidade entre pessoas comuns, ao médico de família, ao administrador solteirão que morava na casa ao lado, havia namorado nossa tia Olga e ainda cultivava o hábito saudável de andar a pé, ao pároco de aldeia, mais versado em fazer o bem do que em queimar as pestanas na exegese da Bíblia, à incômoda noção de pátria que levou os basbaques a pensar que Hitler e Mussolini fossem, de fato, o que jamais puderam ser. Na Primeira Guerra Mundial, Aquiles, impiedoso, voltou a matar Heitor, mas, transtornado, suicidou-se a seguir, enquanto Homero tratou de embriagar-se até madrugada alta com James Joyce. A guerra pôs fim a todos os sonhos sobre a guerra como expressão da mais elevada estética. Se Nietzsche estava morto, tudo era possível.Folheemos, portanto, o álbum: 1) O arco medieval separa o pátio da vila, da estrada; o soldado despede-se da mulher com a criança nos braços;o sol poente projeta-lhes as sombras para o Leste. Estejam onde estiver, a morte aguarda o bom e o mau; 2)Cavalos e cachorros foram usados na Primeira Guerra Mundial, porque essas criaturas faziam parte do dia-a-dia dos homens. Os homens eram gentis e polidos, liam jornais, fumavam cigarros, sentavam-se com as pernas cruzadas, cultivavam arraigado amor à pátria, ao hino nacional, à bandeira e estavam dispostos a morrer por causas nobres, já que a trincheira e o lança-chamas dependiam deles e do inesgotável entusiasmo bélico; 3) Ombro, armas! Os pés de Carlitos entrançam-se um no outro, num gesto caricato que Jânio Quadros irá repetir 50 anos mais tarde. Nem mesmo o bigode de Charles Chaplin faltou ao nosso histrião. Os óculos vieram-lhe por exigência da miopia; 4) Por 3 batatas e uma lata de sardinhas, o soldado desengajado vende cápsulas deflagradas e hélice, como se fôra um camelô parisiense posto entre o orgulho e o desencanto; 5)A enfermeira estende ao rei britânico a mão cálida como se fora Nossa Senhora da Aparecida. No gesto do monarca, há timidez e humildade, apesar da nobreza do cargo. Atrás do rei, à esquerda, três oficiais, como se fossem discípulos dum Salvador. Apesar de andar a pé, o rei é capaz de proceder a entregas demiúrgicas. Flores, barracas: o cenário desses atores é um micro-universo de calma prestes a explodir;6)Um oficial, 8 soldados: da trincheira, você mata o inimigo; na trincheira, você morre pelas mãos do adversário. Para não morrer afogado, você tem de bombear água dia e noite, como se estivesse em alto mar; 7)Varal de ratos, o tifo está ali espalhado pela escassez de grãos. A Grande Guerra devastou os campos preparando-nos para Guernica, Dachau, Hiroxima e Nagasáqui; 8)Os soldados mobilizam-se para a batalha: vão morrer pela pátria ao ser mortos por adversário feroz que defende a sua. Certa extensão geográfica nega a outra, numa Língua diz-se Pferd, noutra, horse, e os donos do Mundo assinam o Tratado da Discórdia.

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