A dama de vermelho

Ado Benatti

Garçom, olhe pelo espelho
a dama de vermelho
que vai se levantar
Note que até a orquestra
fica toda em festa
quando ela sai para dançar
Essa dama já me pertenceu
e o culpado fui eu da separação
Hoje, choro de ciúme
ciúme até do perfume
que ela deixa no salão
Garçom, amigo!
apague a luz da minha mesa
eu não quero que ela note
em mim tanta tristeza
Traga mais uma garrafa
hoje vou embriagar-me
quero dormir para não ver
outro homem te abraçar


[Com diferenças de tratamento e configuração de mundo, a letra de Ado Benatti dialoga com muitos dos poemas de Bukóvski: o boteco, o interlúdio do afeto rompido, o álcool, a vida solitária, a condição de outsider, enfim. Como meu pai, Ado nasceu em Taquaritinga e pelos anos 50s foi chamado de “o poeta da musa cabocla”.Ado não foi um boêmio nem o seu microuniverso foi o da dor de cotovelo. Era regrado, todavia poeta de extração caipira competente. Os doutores da academia deveriam ocupar-se na banca com esse pequeno mundo, hoje arrombado por variantes urbanas de segunda linha.]

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