Cármen Miranda ou Como ela fez de tudo para gostarmos dela

Luiz Roberto Benatti

Sem as saias longas e os turbantes, não saberíamos dizer como seria Cármen Miranda, e o fato estranho é ter de constatar que essa parafernália fez dela o que ela foi e que, desse modo, ela veio ao mundo para ocupar no imaginário nacional um lugar luminoso que os anos futuros tudo fizeram para encontrar para ela quem a imitasse com o mesmo charme e talento. Havia um espaço vazio à sua espera e ela soube como preenchê-lo. Ela não foi registrada com o nome de Cármen, mas como Maria do Carmo, e Cármen foi o apelido que lhe deu um tio português ao pensar na personagem de Bizet. Não tivesse ela sido pobre na infância e adolescência não teria talvez trabalhado em loja de gravatas e depois numa chapelaria e sem os chapéus ela não teria disfarçado a baixa estatura  e, assim de cara lambida, dos anos 30s aos 50s, o País não teria feito dela a show woman for export only. As frutas dos inúmeros chapéus não eram genuinamente nacionais mas isso não importa: as uvas eram conhecidas há 8 mil anos e tinham imigrado do Oriente médio; a maçã veio da Ásia ocidental e da Europa; a banana era do Sudeste da Ásia, Nova Guiné, Malásia, Indonésia e Filipinas; Cristóvão Colombo experimentou o mamão na Ilha de Guadalupe em 1493. Cármen foi a nossa Josephine Baker. O filme Banana da terra serviu para colocá-la sob spot feérico sob o qual ela permaneceu por muitos anos. O resultado foi monumental: 14 filmes nos EUA, além de 34 gravações. No Brasil ela gravou 279 vezes. César Ladeira acertou: ela foi a pequena notável do Brasil tropical que Vargas soube como usar com raro talento político.

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