A dor & a placidez

Luiz Roberto Benatt

 Laocoonte, região da bacia mordida por uma das duas serpentes de Tenedos, rosto e cabeça torcidos, peito inflado, exprime a dor indescritível que o conduzirá à morte juntamente com os filhos. Um dos meninos – o da esquerda do espectador – parece estar desfalecido, e o outro ergue o pé esquerdo na  tentativa vã  de livrar-se da serpente.Laocoonte e seus filhos é a representação da tragédia conforme a configuraram os helenos: Laocoonte havia atirado a lança contra o Cavalo de Tróia e o  gesto extremado desencadeou a fúria de Apolo bem como  a conseqüente condenação. Apolo não se permitiu abrandar o castigo nem considerou como atenuante  o fato de Laocoonte ser sacerdote e ter ido ao templo  fazer sacrifício a Netuno. Lessing examinou com muito vagar a escultura  monumental para definir o limite da Poesia e as artes plásticas. No centro da discussão de Lessing  reside a questão do Sublime. A representação da dor arranca da pedra o esgar da tragédia. Vale lembrar, no entanto, que esse Sublime faz-se pela combinação da Beleza/Apolo com  o mar de Netuno, reino da liquidez abissal. A metáfora está fechada numa concha no fundo do Mar Egeu.  Para os troianos a crença em que a batalha terminara era obrigatória – e isso só ocorreu depois que o Cavalo foi introduzido na cidadela do inimigo. As serpentes procediam do ventre marinho, como os soldados se abrigaram no bojo do cavalo. Já o Moisés de Michelangelo, figura majestática do universo hebraico e cristão, exprime-se pela placidez. A fúria dos gregos aquietara-se, enquanto que a Europa cristã armava a escada de Jacó rumo à transcendência e o imponderável. O Sublime está recoberto pela pátina da dor. Em que abismos perdeu-se o Sublime nos dias que correm? Para concluir estas notas, poderíamos nos perguntar, esquecidos por um momento de  que ele é um ser mitológico, se Laocoonte poderia ter-se contido no gesto intempestivo de atirar a lança contra o cavalo e, assim, evitar a própria morte e a dos filhos? A melhor resposta à questão foi dada por Fichte que apontou para “o eu impelido por uma propulsão contida nele mesmo”, e à afirmação o filósofo acrescentou que “essa atividade do eu dirige-se a um objeto, que ele não pode realizar, como coisa, nem mesmo representar, por atividade ideal”. O impulso manifesta-se por carência ou desconforto, por um vazio que busca o preenchimento. “O eu sente em si um ansiar: sente-se carente.” Talvez pudéssemos concluir que o Sublime brota dessa carência abissal do eu. Se a placidez do Moisés corresponde ao instante em que o eu acomoda-se à determinação da vontade do Pai, a fim de se evitar a castração, o Sublime é o lugar da erupção dos impulsos tectônicos e o parricídio.   

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