Drummondiano

Luiz Roberto Benatti

Do morto a inconfundível memória
me visita?
O morto habitava no outro lado da cidade
e duas horas nos separavam.
Agora
não sabemos.
O que ficou do morto
no Tempo?
Guardados em luto seus projetos sãos
são linhas de despropósito.
Do morto uma só certeza: viagem.
Que sabe o morto de si,
se já não respira?
Que sabíamos do morto
em vida? Era um homem
onde a morte mal se disfarçava.
Como definir o morto? Sol posto.
O morto na memória é vivo
e dói.
Vivo o morto doía mais,
possuía um alqueire
de saudades plantadas,
escrevia cartas, ria.
Gravava intermináveis notícias em garrafas
lançadas ao mar,
após tê-las bebido
em forma de cerveja.
Algo vive no morto?
Morria algo no vivo,
além da morte diária?
A morte do morto surpreendeu-me
ao visitá-lo vivo,
transformando meu pronto diálogo
em monólogo ordinário.
Morrerá o morto
na memória?
O que campeava o morto
no outro lado da cidade,
senão uma vida
onde não se instalasse a morte
a cada dia?
O morto
se procura no Tempo
e procurando-se me encontra.
Do morto sei a voz
a cor da voz e a tez:
seus poucos sinais
mostrados em vida.
Do morto morto sei
a vida.

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