A questão dos registros históricos

Luiz Roberto Benatti

O presente trabalho foi precedido por outros estudos necessários, todavia parciais , dispersos e/ou inéditos (como é o caso do trabalho competente da Profa. Sílvia Ibiraci de Souza Leite sobre italianos no poder em CTV) de Paschoal Roberto Turatto, Brasil Procópio de Oliveira, Sérgio Luís Paiva Bolinelli; dos registros orais colhidos por Dirceu Zaccaro, os dados do IBGE e as anotoções mais recentes de Nélson Bassanetti e Thiago Bacanelli. Todos eles, como o nosso, construíram-se com base em fontes cartorárias, iconográficas ou textuais, colhidas em jornais e revistas de época. Por outro lado, por apoiar-se a presente redação em dados parcimoniosos de orografia, hidrografia, topografia, saúde, botânica, alterações climáticas ou literatura comparada, perguntamo-nos se o particular interesse do estudante de Catanduva, nos anos 50s e 60s (mais tarde, pelos 70s, renovados) por Canudos tem a ver tão-somente com o estímulo do Instituto de Educação “Barão do Rio Branco” aos estudos euclidianos, por Rosa Nassar de Oliveira, na década dos 60s (aluno do Colégio estadual/Liceu Rio Branco, Domério de Oliveira, com quem Rosa Nassar veio a se casar mais tarde, falou sobre Euclides da Cunha, em 25/5/1950, pelo grêmio estudantino. Domério tinha sido maratonista da semana euclidiana de S.J. do Rio Pardo. Era um entusiasta do escritor. No período de construção da nova ponte riopardense e de redação de Os sertões, com Paschoal Artese, Euclides fundou um núcleo de estudos socialistas ou maximalistas na cidade.) , ou se, de fato, a migração de Rodrigues, Costa, Figueiredo & outros, além dos anônimos, de Minas Gerais (N.Sra. da Conceição da Boa Vista, Conceição do Rio Verde e Águas Viçosas) para cá não teria sido motivada, ou pela grande seca de 1876 a 1879, ou pela seguinte de 1889 a 1891?Euclides auscultou os mecanismos dessas secas em sua grande obra. Eram vidas secas, como os imigrantes europeus ou os seguidores de Antônio Conselheiro. Por que iriam Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e a cachorra Baleia, recortados por Graciliano Ramos, procurar terras alheias se as suas não tivessem sido crestadas pelo sol até a combustão? Não se recomenda papear sobre corda em casa de enforcado. E não foi isso que, de modo semelhante, provocou, no mesmo período, a grande migração européia para o Brasil? Estamos sempre a caminho do Paraíso: às vezes, ele se chama Brasil, noutros momentos, Califórnia ou Negueve. Centro e periferia são feitos de igual matéria-prima natural e humana. Apesar de o nosso corpo não ter aspecto cerâmico, o Demiurgo, como um oleiro, fez-nos de barro ou húmus, raiz de humano. Do mesmo modo que o corpo da cachorra Baleia.
Se, como escreveu Pierre Nora, “a memória é a vida”, temos de nos perguntar onde foi parar a vida que se inscreveu naquele lugar e o sentido de que se revestia.Quem vem depois, escolhe Pedro e deixa João dos Anzóis esquecido no fundo da canastra. A presente re/construção do período de formação de CTV também fez escolhas, todavia onde antes não se fizera. Baseamo-nos em documentos, mas deles poderá sobrar muito pouco, além duma data sem cheiro nem sabor, cheiro e sabor cujas texturas Marcel Proust registrou na Recherche. Enfim, a memória não é a história.No dia –a- dia somos memorialistas e o fazemos com tal paixão que a lembrança dum canivete terá o mesmo valor da batalha de Ypres. A memória hesita, desvia-se, acomete-se de delírio, tergiversa ou se interrompe, ao contrário da história, obsessiva o suficiente para inquietar-se com hiatos e lacunas. O presente relato estará sempre mais próximo da memória no sentido proustiano, ou da metáfora, no sentido aristotélico, do que da enregelada consignação cartorária. Não há relato sobre quantos habitantes da velha Catanduva rolaram colina abaixo pela Rua XV, mas o memorialista tem o direito de inventar. Quanto à escolha dos figurantes ou dos fatos, o que se recomenda é avaliar não só as ações ou as implicações de vida do morto, saber com quem viveu, onde esteve etc., do que sobre ele jogar foco de luz colorida porque o cidadão adorava luzes coloridas. Existiram criaturas seminais tanto quanto ocorrências determinantes. Registrar memórias consiste em saber quem foram essas criaturas com grau mínimo de erro.

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