A criança da lata de lixo

Luiz Roberto Benatti

Noutro dia, vetado pelo Sr. Prefeito, o vereador apresentou projeto de lei que obrigaria a companhia de transporte público do Município a manter lixeira em ônibus urbano.O vereador passou batido pela carência quase absoluta de banheiros públicos. Além disso, lixo e ecologia estão na moda, banheiro não. Não sei se o Sr. Prefeito conheceu Rainer Fassbinder, meu grande amigo alemão que, por muitos anos, viveu como outsider na Praia do Guaiúba, no Guarujá. Fassbinder era um desassossegado e só foi ancorar na praia porque começou a envelhecer e muitos velhos tornam-se reclusos e ranzinzas. Ergueu no pé do monte simpática e minúscula casa com a sucata que recolheu de residências demolidas, fotografava e filmava o povo caiçara da região, no entardecer boiava na simpática baiazinha de água salgada e quase morna e, a cada dois ou três dias, deslocava-se numa velhíssima motocicleta francesa, usada na Segunda Guerra por um rapaz da Resistência , para o centro do Guarujá, para comprar joelho de porco e cachaça. Fassbinder adorava chiboca.Seu avô materno, Thomas Mann, filho de brasileira morena, consumiu chiboca a vida toda e, quando não localizava o instrumento adequado, mexia a pinga, o açúcar e o limão com lápis. Embora eu me lembre de Fassbinder com certa freqüência, a notícia sobre a criança encontrada sem vida numa lixeira de Palmares Paulista trouxe-me à lembrança um dos primeiros curtas realizados por Rainer na Europa, acerca de bebês abortados por suas mães e, depois, postos em latas de lixo. “Jogue o lixo no lixo”, diz a inscrição gravada no muro do terreno baldio.Como Palmares já se chamou Cordão Escuro, associei a fúria da mãe homicida ao cordão umbilical do bebê que não vingou. Fassbinder é essencial ao interessado na história da moderna Alemanha, depois da Guerra, do Muro, da desconstrução do Partido Comunista e da dispersão política da classe operária.Dispersão quase universal, ainda que os franceses insistam em acreditar em alguma coisa para além do que enxergam no espelho.A comemoração do 1º. de Maio brasileiro faz-se com churrasco e sorteio de bicicleta. Nada de bomba molotov ou fugir ao cacetete da polícia. As mulheres da classe alta também abortam, mas não costumam botar na lixeira os filhos indesejados. Em Palmares, circula o lúmpen procedente do norte do país, à procura de catre e comida no sul maravilha. Deitar-se com uma morenaça é fácil, o custoso é cuidar do fruto do amor proibido. No filme do meu inesquecível amigo alemão, as crianças abortadas e atiradas nos latões de lixo renasceram para a vida e, nuas, nas primeiras horas, mais tarde, cobertas de andrajos, ajuntaram-se umas às outras e cada uma delas fez o que pôde para cuidar de si e das mais frágeis. Ao crescer, descobriram que eram filhos do mundo do Capital predatório, cuja divisa é “Cada um para si e o diabo contra todos”. Os ex-bebês de Fassbinder formaram legião e, como legião, espalharam-se pela Alemanha, Europa, o mundo e, agora, chegaram até nós. São feinhos da silva e precisam dum bom banho morno nas águas do Guaiúba ao entardecer.

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