ONZE E MEIA

Barbara Köhler

Raramente uma coisa parece atrair-nos tanto, ser tão forte ou mais forte do que o chão por baixo dos nossos pés. Raramente uma coisa nos desprende da força da gravidade, nos desliga da dependência de superfícies, das quais nos destacamos sobre duas pernas, sobre as quais, a cada passo, ficamos de pé e andamos. Raramente. Erguemo-nos para dentro do espaço, dos espaços, mas insistimos sempre nas causas. Falamos sobre isto, estamos sentados, deitados, andamos sobre as mãos e de ponta-cabeça, rejeitamo-nos, saltamos, caímos em direção ao grão da terra, somos casos-limite do espaço. Pelo menos sabemos nadar. Mas temos medo de perder o chão por baixo dos pés; sentimos medo, por assim dizer – como se também houvesse uma razão para isto e aquilo.

Pássaros e peixes, que se movimentam no espaço sem respeitar superfícies, têm em vista a diferença, eles vêem como nós ouvimos: para os lados, sem área de sobreposição, sem zona de interferência das imagens, sem um “à frente”, sem foco: vastidão. Quando muito somos capazes de olhar para longe, o que (de certa forma) é o mesmo que ir até lá, mas mesmo assim é demasiado curto. Percebemos a distância como um fenômeno acústico; talvez os pássaros e os peixes compreendam o espaço assim como nós a música… e talvez façamos música porque procuramos o distante; algo que fosse tão forte ou mais forte do que o chão por baixo dos nossos pés, mais forte do que a gravidade. Algo com peso igual ao nosso. Talvez seja essa a arte, a felicidade: um talvez.

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