Corpo e poder

Luiz Roberto Benatti

Antes que Dilma Rousseff fosse despertada para a política por intercessão de Lula, Marta ex-Suplicy, psicóloga e prefeita da Capital, foi musa inspiradora de inúmeras mulheres candidatas a cargo administrativo pelo PT. Administradores de ambos os sexos muitas vezes querem vender-nos o peixe, insípido e inodoro, de que, sentado na escrivaninha, o político conduz-se por atos de pura racionalidade cartesiana e que, para isso, pendura no porta-chapéu o desejo, de onde o leva para casa no fim do expediente. Ele reafirma que a prefeitura é a ocasião de seu cupio dissolvi, quer dizer, eu me anulo ou me dissolvo enquanto corpo erótico para refundir-me nas tarefas assexuadas do dia-a-dia, longe da tentação e dos tremilicões da carne fraca, como no filme de Stanley Kubrick. Tudo isso, claro, indepedentemente de se saber se o administrador é casado ou solteiro, se pôs filhos no mundo, é feio ou bonito. Contam as boas e as más línguas que John Kennedy era um infatigável garanhão e que, por trás das cortinas da Casa Branca, o ajudante de ordens, todos os dias, ouvia gritos e sussurros. Assim como o santo pode ser o resultado da sublimação ou da mais completa renúncia aos apelos da carne, o administrador no poder poderia trocar energia instintiva ou libido pelo desmedido desejo de enriquecer-se por caminhos tortuosos. Nesse particular, o cupio dissolvi funde-se nos atos de ilicitude, cujo desfile de locupletantes vemos de uns tempos para cá na sala majestática do Supremo tribunal de justiça. Talvez o candidato ou candidata ao cargo eletivo já tivesse na campanha semeado pistas indicativas dessas ações desregradas ao trabalhar na televisão com os pares antitéticos saúde/doença, analfabeto/alfabetizado, emprego/desemprego, segurança/insegurança, positivo/negativo, Eros/thanatos/vida/morte.Basta anotar –lhe a ênfase posta nesses pares. Para Sigmund Freud, duas são as orientações básicas da libido: o instinto de vida e o instinto de morte. Se entendermos que a ação do administrador deixou-se conduzir pelo trato absolutamente ético com o dinheiro público, teríamos de cifrar essa ação com a marca de Eros, quer dizer, o apelo para a vida; fosse a ação desse administrador contrária a essa, sua cifra seria Thanatos ou o encaminhamento para a morte. Vê-se, portanto, que para a Psicanálise morte e vida vão um pouco além do desfrute da vida saudável ou da doença que nos conduz à morte. O leitor que se interroga sobre o segundo sentido das palavras ou ações deveria prestar muita atenção nos comportamentos dos políticos orientados para o instinto de morte, já que o dinheiro público deveria ser garantia de vida plena para o conjunto dos cidadãos.

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