Passagens interceptadas

Luiz Roberto Benatti

(Voz do narrador: Coa-se a luz matinal pela vidraça da pequena janela. Vésper e a lua tênue ainda estão visíveis no trecho de céu emoldurado pelos caixilhos. Vestida com elegância discreta, porém há muito tempo estudada, ela se senta numa mesa redonda diante do jornal aberto na seção de horóscopo.As flores do vaso foram colhidas há pouco no jardinzinho fronteiro.  O relógio cuco assinala 7 horas duma manhã de Outono. A mulher aparenta ter idade indefinida, a par duma indesmentível sensualidade. O restante da sala recobre-se de leve penumbra.Ouve-se ruído procedente da cozinha.)

A mesa servida

Baila: Bom dia, Jemina, pomba matinal impecável. Tome o café. Eu o passei há pouco. Há  coalhada  na geladeira e pão sírio  no lugar de sempre.Como você fez sem os óculos? Com Jemina, chega o silêncio até a mais completa anulação de si mesma. Recite pelo menos O corão. Seu avô era árabe, não japonês.Está me parecendo que o dia será inusitadamente novo, extraordinário e que por muitos e muitos anos jamais voltaremos a assistir a um como o que está prestes a se fazer.Odeio todas as rotinas cretinas. Este será o dia do evento inevitável. Por estes dias, na imprensazinha diária ou hebdomadária, quase tudo é evento, mas eu me refiro ao excepcional. Tive sonhos nunca antes sonhados.Evento inevitável: quando ele acontece, ninguém poderá negá-lo, degradante para uns,exultante para outros. Sobre meu corpo antigo vão  espalhar-se átomos e corpúsculos dos jardins do prazer. Não padecerei de hemicrania ou intoxicação, porque eu e o estranho passearemos por entre lotos, enquanto os inimigos  estarão nas trevas da negra fumaça e ali beberão água fervente. Jemina, Jemina!Estaria a santa criatura começando a ficar surda? Há pessoas que não ligam em ficar surdas, porque assim, dizem elas, deixam de ouvir as pequenas e as grandes bobagens do mundo. (Pela porta entreaberta que dá para a cozinha, surge ou parece surgir um vulto, à primeira vista de contorno masculino.Poderia ser Jemina, mas não se sabe. Com a mão vestida de luva preta, o vulto apaga a luz da sala. A seguir, cabeça baixa voltada para a parede, fecha a cortina da saleta que, assim, mergulha-se em ampla penumbra. Baila simula espanto, quando, de fato,  parecia estar à espera do vulto ou do espectro, velho companheiro de infindáveis bate-papos e feitos imaginários.)

O vulto: Havia uma trincheira lá fora e só a custo pude contorná-la. Soldados armados até os dentes por todos os lados. Revistavam tudo e todos.

Baila: “Trincheira?” Quantas letras? 3 ou 4?

O vulto: 4.

B: “Barricada”. Eram hussardos. Eu sei quantos: 60. C´est la fuite de Louis XVI et arrestation à Varennes [Fuga e prisão de Luís XVI em Varennes]. 21 de junho de 1791. O plano de evasão fracassou.Devem ter dado voltas e mais voltas pela Rue de L

’échelle. Como sempre, o valete de quarto falhou, porque os criados são retardados.E você?

O vulto: Sou inflexível, você sabe.

B: “Inflexível?” Quantas letras.

O vulto: 4.

B: “Implacável”, sétima casa vertical. Luís XVI e Maria Antonieta serão enforcados e jamais reuniremos os seus ossos. Todavia, eu sei, você e seu amigo do peito Mirabeau desejam praticar o mal. Saiba que, se você matar alguém, será como se tivesse assassinado toda a humanidade. Onde está o refúgio?Não haverá escapatória alguma! Vocês dois, os líricos, escolheram a vida efêmera. Jamais fizeram caridade, por isso tornaram-se insolentes.

O vulto: Por que você não diz que nos prenderam. Fomos atirados nus numa masmorra gelada e queimaram a sola de nossos pés. Interrogaram-nos dia e noite uma semana inteira.Por que você justifica a crueldade do adversário?

B: Acerca de que foram interrogados? Vocês querem o novo, mas o novo é o fim de tudo o  que eu sempre acalentei. Não responda. Os sobreviventes logo saberão e vocês, os líricos, encontrarão o sono para o descanso ou irão redescobrir que a noite foi feita para o encanto? O inferno, meu caro, é a emboscada. O inferno é a morada dos transgressores.

O vulto: Oxalá me tivessem convertido em pó!

B: Interrogados? Acerca da grande notícia a respeito da qual vocês duvidam ?: que das nuvens virá copiosa chuva para produzir grãos e plantas? Só assim os tementes obterão a recompensa, jardins e videiras, e donzelas e taças transbordantes.

O vulto: Aqui eu tenho encontrado tudo isso. Você é o meu refúgio e as suas palavras são doces e musicais. Aqui eu me refaço para novas e estafantes jornadas. O mundo podre me espera para ser removido para o grande lixão da História. Não temos mais dinheiro, por isso eu me apressei em vir até você.

B: Estou à beira da falência. Só me restam as  jóias de família e dessas não irei abrir mão. Esqueça-se delas.

O vulto: Onde estão? Pensei que fossem ninharias.

B: “Ninharias?” Quantas letras?

O vulto: 4.

B: Bagatelas: 16 horizontal.  São muito valiosas e você sabe disso. A cobiça vai entretê-lo até que você desça aos sepulcros. Logo, logo, você verá a fogueira do inferno e, nesse dia, será interrogado a respeito dos prazeres mundanos e por que os trocou pelo ouro. Você adora rampeiras. Eu me conservo, você se reserva como peixe em conserva. Você é vinho de superior qualidade para uma grande ocasião. Não poderia ser hoje?Vá se preparar para o café da manhã. Lave o rosto, as mãos, o antebraço até os cotovelos, esfregue a cabeça com as mãos molhadas e lave os pés até os tornozelos. Você tem nas mãos o sangue do terror.

(O vulto se afasta. Aos poucos, o palco é invadido por completa escuridão.)

B: Jemina, arrume a mesa da sala para o café do estranho.Ele veio da luta inglória e deverá engolir o que estiver à mesa com a sofreguidão dum tigre.Eu lhe direi:Estão vedados a você, desconhecido, a carniça, o sangue, a carne de suíno, porções de animais estrangulados ou vitimados a golpe, ou ainda os que foram mortos por causa de uma queda ou chifrados ou  abatidos por fera.

(Silêncio)

A segunda chance

(Voz do narrador: Manhã ainda escura de Inverno. Pela janela entreaberta, avista-se tão-somente a luz amarela do poste fronteiro.Vestida com elegância discreta, cachecol no pescoço, ela se senta numa mesa redonda, abajur aceso, e diante do jornal aberto na seção de horóscopo. O vaso de flores está vazio. O relógio cuco assinala 8 horas. A mulher aparenta ter idade indefinida, a par duma indesmentível sensualidade. O restante da sala recobre-se de penumbra. Ouve-se ruído procedente da cozinha.)

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