Jekyll e Hyde ou A personalidade cindida entre Bem e Mal

Luiz Roberto Benatti

Stevenson ocupou-se muito tempo com a idéia duma criatura dúplice, em cuja alma se comprimissem tanto a vocação para o exercício do Bem quanto a capacidade de fazer traquinagens.Não é que haja nesse espírito algo embutido que ora disparasse um dos caracteres, digamos o Mal, ora soltasse um tipo meio angelical. Trata-se dum movimento incontrolável, como se, recoberto pela capa do mágico, um deles, aninhado, de repente, pelo movimento de retirada do lençol, saltasse para fora da jaula e, desse modo, se apresentasse ao caro espectador com as  palavras : “Bom dia a todos e a todas, sou Jekyll” ou então “Agora, vou-lhes mostrar meu sósia Hyde”. Disparado um deles, o outro desaparece, até que venha a ser substituído pela criatura antitética, por um tempo à espera do instante para sair detrás da coxia. Criaturas de teatro, o teatro do mundo, o palco das ilusões, o circo dos horrores, o jardim do Éden.Já vimos isso na administração pública da cidade, e não houve quem por muitos anos não se interrogasse sobre as oscilações de espírito: “Mas nós jogamos bola juntos!”Não importa porque a bola foi chutada daqui para lá nos tempos de inocência. Agora, o metal sonante fala mais alto. O que nos parece ser impossível é o possível da alma em cujas entranhas esconde-se o mistério da natureza humana, a húbrys dos gregos, o esquecimento dos limites. Para que existe uma igreja, se não para reatar fios de ligação entre a imanência e a transcendência ou exercitar-se para a caridade. O que faz o sr. Jekyll? Procura na letra miúda do código uma intenção, um motivo, um deslize e, assim, manda fechar o templo.Amanhã será a vez da farmácia, cuja manipulação não se fez conforme as luzes de Jekyll. Feche-se a farmácia até que se cumpra a ordem, a Lei. Jekyll, nervoso, bate à mesa, grita, escancara a abertura da boca, derrama café na toalha de linho. Tudo é doméstico ao mesmo tempo em que a criatura passa a viver parte do dia coberto de números e impropérios, cetro à mão. A criatura não quer candidatar-se a tal ou qual cargo para ganhar dólar furado, mas tão-somente atrapalhar o jogo do adversário, o inimigo, o filho do estrangeiro. Ainda assim, com cara lambida, ele afirmará de pés juntos que quer o bem da cidade. Deve ser, porque ele, de fato, quer ser o rei da cidade, il re della cità.

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