Lembranças do Barão do Rio Branco e os velhos amigos

Luiz Roberto Benatti

Poucos meses antes do suipatricídio de Getúlio Vargas,em 1954, o velho Barão da Rua Maranhão/Cuiabá mudou-se para o prédio novo da Praça Roosevelt, onde, até meados dos 70s, viveu o período de ouro. Da escola primária ao científico, clássico ou escola normal, era como se você, no tempo de duração desses 11 anos, cursasse 2 ou 3 faculdades. O estudante era empurrado para uma viagem cuja paisagem não se repetia, a tal ponto intensa, que aquelas árvores, animais ou recortes de nuvem entrevistos da janela configuravam-se em nosso imaginário como a Escada de Jacó. Os professores dominavam o discurso de suas matérias, o tempo da aula era infinito, as classes numerosas, o apetite pelo conhecimento desmedido. O professor nem sempre tinha automóvel e, quando chegava motorizado, era num veículo preto bastante usado, cuja importação tinha sido feita há décadas. O professor usava terno e gravata, conhecia Língua portuguesa independentemente da disciplina que lecionava, engraxava o sapato, fazia a barba e penteava os cabelos. Ninguém era tio ou tia de ninguém. Música, cadeira que desapareceu, desdobrava-se em Teoria, Canto orfeônico e Aula prática no laboratório. Com 11 anos, você escrevia nas linhas pentagramaticais o discurso musical do professor Anísio Borges. O jornal “O saci” ganhou o prêmio de melhor tablóide estudantil do País e os estudos euclidianos da cidade eram conhecidos em São José do Rio Pardo, onde Euclides da Cunha redigiu Os sertões. Paul Edward Fort, professor de Química, Moacyr de Arruda Mendes, de Física, e Paschoal Roberto Turatto, de História, assinavam laudos periciais de sangue ou balística para o fórum local. Você podia ficar reprovado de ano por meio ponto. Quando me inscrevi no Estado da Guanabara na Universidade do Rio e na do Estado em Direito não sabia o que era “cursinho”, mas tive de fazer prova de Latim sem dicionário. Aprovado no Rio, voltei a Catanduva para anunciar o resultado positivo, ao que meu pai, à moda meridional, respondeu que eu não tinha feito mais do que minha obrigação. Ele estava certo e assim eram as coisas no meu tempo, época em que abacaxi e laranja eram apenas abacaxi e laranja. Os professores reuniam-se com os alunos depois da aula ou nos fins de semana e uma vez por ano disputávamos no Feitiço partida de futebol. O Barão, a Praça da República, as livrarias, os cinemas e alguns bares de categoria eram lugares de descontração, descanso e refinamento do discurso filosófico ou político. 25 anos é o tempo do ajuntamento nos anos de formação e, mais tarde, de dispersão. Agora, estamos na Diáspora. Ajunto à página alguns retratos de velhos amigos. Estão por aí, ainda que enrugados e de cabelos brancos. À frente do Barão de nossos dias, temos de dizer como Jacó: “Não é se não a casa de Deus e este é o seu portão de entrada”. Como a escada se desfez, deitemos a cabeça na pedra como se fosse travesseiro. [Da esquerda para a direita, Jaa Torrano, da Cadeira de Grego da USP; Maria Eugênia de Domenico (à direita), atriz; Renato Scatena Marão e Expedito de Andrade Freyre, que nos ensinou Inglês e Paulo Pasta, pintor de primeira grandeza], além de Suely Borges Fontão.

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