Ciclo da Praça Roosevelt, SP

Lucas Leonardo  Venturin

  • Os (moradores)
    miseráveis
    da Praça Roosevelt
    não dividem um cigarro
    ganhado, mas dividem um pedaço
    de pizza achado.

Vício vício!
Fome fome!

  • Essa necessidade
    de beber
    sentado na escada
    da Praça Roosevelt.
    De saco cheio do mundo.
    De saco cheio das pessoas.
    De saco cheio de ser humano.
    Os miseráveis
    são sortudos.
    Eles são ignorados pelas pessoas.

Que inveja!

  • Ontem
    a praça Roosevelt estava
    melancólica
    devagar
    vazia
    chuvosa
    calma!
    Sem bêbados
    miseráveis
    sem pizza!
    Apenas ratos!

Os ratos adoram a Roosevelt!

  • Sobre os ratos
    eles adoram os bêbados
    loucos
    que comem suas pizzas de dez reais
    e derrubam migalhas
    ou pedaços .

Os ratos também oram
pra que deus abençoe os bêbados
com suas migalhas

  • A negra moradora
    de rua arrastando um pano
    vermelho.
    A dúvida: é pedaço de um lar
    antigo
    ou lixo achado na calçada de um bairro burguês?

A negra arrasta seu pano vermelho,
vasculhando
os lixos na Praça Roosevelt.
Ela varre o chão com seu trapo
vermelho.

Seria sua cama?
Ou apenas coberta pra dias frios na rua?

  • Ela é hétero
    paulistana
    branca
    macumbeira!
    -Antes macumbeira
    que evangélica!

Eu sento na calçada
tomo minha cerveja
e escuto!

  • As bichas na praça Roosevelt
    bebem suas latas de cerveja
    e fumam seus cigarros
    e beijam outras bichas.
    Meninos amam
    meninos
    ao ar livre.
    Sem medos ou
    pré-conceitos.

Os bares
lotados.

Meninos, meninas.

Crianças com malícia nos olhos.

  • Um casal
    dois homens
    pedem um espumante.
    Eu abro a garrafa, um deles:
    “Evoé!”
    Poderia ser um vinho,
    mas se Dionísio estivesse aqui,
    ele aceitaria uma taça de espumante.

Dionísio gosta das bichas.
Ele sabe que elas amam
sem pré-conceitos.

Logo um deles recebe uma mensagem
no whatsapp
e tchau!
Vai pra algum encontro
uma breja
um cigarro
uma foda.
Boa, ou ruim.

Ou apenas seu pai
que acaba de morrer no hospital
e ele precisa ver onde
e que horas
vai ser o velório.

Não sei!
Eu fumo um cigarro atrás do outro
e observo.
Imagino suas vidas.

Crianças maliciosas.


  • O sol nascendo
    e eu bêbado
    enrolando pra pegar o ônibus
    e ir pra casa dormir.
    Na praça, homens
    jogados
    nas escadas,
    calçadas
    dormindo.
    Cansados,
    ou bêbados.
    Na minha cabeça,
    The End, Doors!

Não sei o que esses homens sonham.
Ou se sonham!

Uma cama
um cigarro
um baseado
um copo de cerveja
ou algum outro bêbado pra quem pedir
e ganhar uma moeda.

  • Longe da Roosevelt
    sinto falta dos bêbados,
    amigos por algumas horas
    feitos na frente do bar…
    Hoje tive folga no trabalho.
    Estou acostumado
    a passar a madrugada na praça
    observando aquelas pessoas.

Sei que um dia isso vai acabar
(não a praça
mas minhas madrugadas
nas escadas
observando).
Vai acabar,
e vou precisar de outro lugar,
outras pessoas pra observar
e escrever.
Outro ninho,
outra fonte
outra praça
outra escada
outros bares
outros bêbados!

Mas tem que haver ratos!
Estou acostumado
a rir das suas passagens
ligeiras
pelas calçadas,
e as mulheres pulando,
gritando
assustadas.

Um dia desses,
indo pro ponto de ônibus
até chutei um deles,
sem querer.

Não foi preciso pedir desculpas.
Ele nem sequer reclamou

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