Os piores anos de nossas vidas – I.1968

Luiz Roberto Benatti

À primeira vista, 1968 foi um ano de tal ordem politicamente emaranhado, que só a reconfiguração pelo cinema poderia devolver-nos parte do susto e a emoção que nos causou, razão por que o apelido que lhe deram – “o ano que não terminou” – é bastante apropriado.Ele continua a desenrolar-se aqui ou alhures, com muitos de seus figurantes bem vivos e mutantes, como é o caso de José Dirceu.Há momentos em que tanto o cenário quanto os personagens desse ano parecem executar ou sugerir a execução de atos que jamais poderão ser repetidos,uma vez que o mundo que o substituiu, logo a seguir, fez-se por outras vias, a ponto de as coisas e os sentimentos daqueles dias ter-se petrificado como se fora peça fóssil de museu.Assim que o ano virou, o Pacto de Varsóvia passou com tanques sobre o cenário formidável da Primavera checa, e a multidão, nas ruas de Praga, parecia gritar uns gritos leninistas que só o fim dos tempos saberia reproduzir ou ecoar.O realismo soviético teletransportou o sonho da Revolução para um terreno minado, cujas bombas explodiriam como se fossem ocorrências inevitáveis. A culpa ou o pecado, enfim, salpicaram de roxo as barbas de Karl Marx.O 68 nem de longe assemelhou-se ao nosso 32, por isso não reconheceram nos jovens estudantes mortos pela polícia – Édson Luís de Lima Souto (28/3), no restaurante Calabouço/RJ e José Carlos Guimarães (3/10), na Rua Maria Antônia, no confronto USP/Mackenzie – avatares do MMDC, movimento estapafúrdio da classe dominante paulistana.O 68 foi como maçã no escuro, cujas sementes tivessem sido envenenadas pela discórdia escorrida das feridas abertas de estudantes, operários e intelectuais.O 68 tinha o volume e o perfil do retorno do reprimido político, enquanto que o 32 assemelhava-se com aquilo que jamais poderia ter sido feito por quem ansiava pelo novo.O 32 fez-se contra a História, o 68 tentava arrancar a história do lodaçal em que o neofascismo a metera.Em 7 de junho de 1788, explodiu na França La journée des tuiles que ficaria bem caso fosse rebatizada de O arremesso das telhas, destelhamento que tinha por propósito devassar de alto a baixo as casas da carcomida monarquia francesa. Cento e oitenta anos depois, a moçada armou-se de paralelepípedos, montou barricadas, pôs fogo em automóveis e decretou o inesquecível Maio francês, a que operários e intelectuais aderiram.A batalha foi fragorosa e suas faúlhas espalharam-se pelo mundo todo.

Em CTV, saímos à rua, vela acessa à mão e vestidos de preto.O nosso Maio francês foi comemorado com um seminário sobre Herbert Marcuse que não era francês, mas alemão.Como um velho carvalho cansado de enfrentar incontáveis borrascas, Charles De Gaulle preparou-se para tombar de modo lento e definitivo.Em CTV, fizemos da ARENA gato e sapato e fundamos o MDB. Como o espião e o dedo-duro tomavam chope conosco na saudosa Cabana, de vez em quando espiávamos embaixo da mesa para ver se havia ali algum esbirro da ditadura.Eles não viraram salame barato, mas por si mesmos jamais teriam chegado a ser presuntos de Parma. Em 26 de junho, a passeata dos cem mil coalhou de pessoas as ruas do Rio de Janeiro, com a ajuda de padres esclarecidos.No 3º. Congresso da UNE, em 15 de outubro, na região rural de Ibiúna, a polícia mandou para o xilindró quase mil e quinhentos estudantes dos dois sexos.Em 22 de novembro, a ditadura desovou o ovo apodrecido do Conselho Superior de Censura, desafeto do texto político e amante da tesoura de gume afiado.Na passagem de ano, Costa e Silva, sem pedir licença, entrou pelo telhado de todas as casas brasileiras e depositou no pé da árvore de Natal, ainda armada, um brinquedo supimpa – o 5º. Ato Institucional que, dentre outras peripécias, suspendia o direito de habeas corpus para os crimes políticos.A partir desse momento, a ditadura começou a desmorar, de modo lento, inseguro e irrestrito.

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