As aves que em Portugal gorjeiam não gorjeiam como as do Brasil

Luiz Roberto Benatti

Parece-me que cheguei ontem, todavia doze já são os meses que me vêem por aqui. O mais penoso foi ter-me esquecido do Português de lá para arranhar o luso de cá. Pensei estar traindo minha mãe que, desde o berço, fora aos poucos colocando-me na trilha do Português gostoso do Brasil, conforme a definição do poeta pernambucano Manuel Bandeira. A duras penas, aprendi que  as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá! Acordei-me bem cedinho e fui para a casa de banho, cujo autoclisma carecia de reparos. Fiei-me na lixívia para me livrar do nauseante malcheiro .Todos os malcheiros se parecem. Ao passar diante do quarto da senhoria, ouvi os berros estridentes dos miúdos, àquela hora despertos. Imagine o confrade que, mal nascera o sol, já chutavam o esférico pelo quarto como se as pranchas do assoalho fossem o relvado do Benfica. Depois da ducha, voltei ao meu quarto de estudante de Direito, vesti as peúgas que mais bem combinassem com o fato azul, desliguei a ventoinha e, rápido, dirigi-me à mesa do refeitório, para tomar uma bica de café da Somália. Havia muitos bigodes sisudos à mesa.  A esta hora não como prego e, como sou moderadamente frugal, evito o galão com leite e açúcar de beterraba. Comi meio cacete com manteiga. De volta ao quarto, ouvi que os miúdos continuavam assanhados e pensei que,  fossem eles meus filhos, poderia aplicar-lhes  uma bela tareia. Senti no bolso do fato um volume estranho e dele saquei o tira-cápsulas de véspera. Quando me reformar, dentro de 30 ou 40 anos, o que farei com essas incômodas sebentas? Saí. O descapotável estava aparcado do outro lado da rua e espetada no limpador dei com uma coima de 5 euros. Não tolero ser chamado de mandrião ou gadelhudo, porque arrumei um borrachinho de fechar o comércio. Ela me chamou de pessegão no primeiro dia. Por um triz não perdi essa rapariga de sonho no dia de seus anos. Foi assim: ousado, quis presenteá-la com roupa íntima procedente de Paris e, na loja, solicitei à caixeira que embrulhasse a mais linda calcinha à venda. Ela olhou-me de um jeito enigmático e, quando Margarida desempacotou o presente, levei um tapa ardido no rosto. Eu lhe dera uma cueca rendada!Abatido, contraí gripe mas ela me conduziu ao prestativo farmacêutico que, jeitoso, aplicou-me uma poderosa  pica de antibiótico no traseiro. Uma semana depois, refeito, sentamo-nos no Chiado para sorver  imperial gelado, ler Fernando Pessoa e falar mal do Brasil.(Tradução:casa de banho significa banheiro, autoclisma é nossa tradicional descarga, lixívia é água sanitária, as crianças são miúdos e o esférico é a bola de futebol; peúgas são meias, o terno diz-se fato, o ventilador é ventoinha, bica é xícara de café, prego é sanduíche de filé, média é galão, cacete é pão francês, sacarrolha é tira-cápsulas, sova é tareia  e sebentas são apostilas; um carro conversível é um descapotável, aparcado é estacionado e coima é multa: um mandrião gadelhudo é um malandro cabeludo e borrachinho é uma garota fenomenal, pessegão é gato ou pão, calcinha é cueca, pica é injeção e o chope é conhecido por imperial)

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