A dor de não estar vivendo

Diego Tiscar 



Lembro-me de  Domingo, música dos Titãs que dá nome ao CD, como ouvi esse CD na minha adolescência, sem ter noção que tal música duraria muito da minha prof issão,
“Não sei o que fazer/não sei o que fazer/eu saio por aí/sem ter aonde ir”.
Dies Domini ou Dia do Senhor acabou se tor nando o dia que celebramos o senhor das moscas, o demônio do meio- dia “Domingo é dia de descanso/nem precisava tanto/Domingo é dia de descanso/programa Sílvio Santos”.
Os Titãs terminam sua música com “domingo eu quero ver o domingo acabar”. Fica a pergunta e quando não acaba? Benatti pediu um texto após assistir a  um vídeo em meu Facebook (que também está disponível no Instagram), ali falo de dois ladrões que pedem refúgio em uma casa: todas as noites eles são tentados com riquezas, dando vazão à sua natureza os gatunos tomam posse do que não é deles.
Os dias passam, o dono da cada não diz nada, apenas repõe os tesouros, com mais tesouros. Frustrado um dos ladrões bate com os punhos na mesa e grita: “mas que inferno!”, com um sorriso no rosto o dono da casa responde: “onde vocês acham que vocês estão?”.
É fácil recorrer a explicações convencionais ou moralistas, vou por outra linha –  a do esvaziamento: qual o sentido do domingo para você que trabalha a semana inteira, dormir para voltar ao trabalho na segunda-feira. Por que?
O esvaziamento do sentido da vida advém da falta de sentido. Freud nos apresenta o superego, uma lógica repressora pautada em um ideal.
A lógica e o discurso se diferem, muitos acreditam que o superego é aquele que diz não para tudo. Sua grande artimanha pode ser o sim.
Qual o ideal do ser contemporâneo? A criatura sensível que compreende todos os lados, ao tempo que tem pra sim uma vida de conforto e realizações. Eu também quero, onde eu me inscrevo?
A pergunta a ser feita é “por que”, eis que  deparamos com a ausência da resposta nada de “porque quero”, “porque é gostoso” ou “viver nu m mundo assim me deixaria feliz”. Ao contrário  deparamos com o silêncio em seu positivo ou  negativo.
Qual o negativo do silêncio? A explicação pronta, decorada de um grupo, ideal ou peça publicitária, nada contra nenhum dos três estou olhando para a lógica de funcionamento.
Um honesto “não sei”, seguido do triste esvaziamento de uma ação teria um prognóstico melhor.
A dor de não estar vivendo é o sintoma máximo do esvaziamento de sentido da própria vida.
Por que o domingo, único dia em que podemos fazer o que quisermos vira um dia que aprisiona? Por que a opinião e a fala, instâncias individuais servem ao coletivo? Por que a liberdade aprisiona cada vez mais?
A fórmula da honestidade corrompe, a fórmula da defesa da vida mata, a fórmula da liberdade aprisiona.
Costumo dizer que textos são criaturas vivas, eles adquirem consciência e seguem por onde querem.
A dor de não estar vivendo é um fenômeno individual, assim como um vírus se propaga com facilidade, atingindo nações.
Na época de Freud os doentes eram os reprimidos, no século XXI somos aqueles que tudo devem, em ambos os casos temos o tédio constante de uma vida igual e sem surpresas, sinal de adoecimento psíquico.

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