Às portas da embriaguez, o Céu o Inferno

Luiz Roberto Benatti

A Arte moderna, cuja modernidade, a rigor, passou dos cem anos, nasceu no boteco, nos grandes cafés parisienses, no cabaré, nos territórios mais ou menos livres de Montparnasse. Você pedia uma média às 9 da manhã num café envidraçado, sentava-se à mesa, lápis e rascunho, e tentava fisgar no ar enfumaçado o poema dadaísta ou surrealista. Ali mesmo, você recebia correspondência dos Estados Unidos, do México, da Rússia e, eventualmente, do Brasil. Além da janela, o desfile da humanidade. Oswald de Andrade, às vésperas do retorno a SP, sentia feroz ataque de urticária antropofágica. O mundo anterior à Primeira guerra mundial desconfigurou-se, mas, quando o pó mortal do gás mostarda assentou-se, os boêmios, de novo, reuniram-se nos inferninhos. Não se iluda: fizeram tudo o  que o seu imaginário projetou e alguma coisa mais. No número 53 do Boulevard Clichy ficava O inferno, espécie de Paribar extraído de Dante Alighieri: abriu-se no final do século XIX e morreu em meados do século XX quando o mundo começou a ficar sem graça. À  porta, a inscrição “Entrai e ide à condenação!” Você podia pedir café preto com conhaque ou pecados em efusão com gotas de sofrimento.O cardápio oferecia: “Agonia dos condenados”, a “Rodada dos amaldiçoados” ou a “Caldeira”, provavelmente mistura de absinto com algum veneno de época. Os arrependidos entravam no cabaré ao lado – O céu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.