1932: revolução à  ré

Luiz Roberto Benatti

A instalação do ânimo bélico contra o governo central e seus interventores em São Paulo iniciou-se nos primeiros momentos da ditadura de 1930. A idéia de resistência logo se espalhou pelo corpo das estruturas sociais como fogo no capinzal. Fervilharam idéias, ampliaram-se discursos. Pensou-se no dia 14 de Julho como data deflagradora do movimento de sedição, um dia bastante interessante se pensarmos que foi esse o da Queda da Bastilha. Foram Bertold Klinger, Euclides Figueiredo e Júlio de Mesquita Filho os responsáveis pelo disparo do movimento constitucionalista. Silenciosos como coelhos na toca, a movimentação dos paulistas não foi notada nem mesmo pelo interventor Pedro de Toledo. Amedrontado, ele renunciou em 9 de julho para voltar no dia seguinte como governador aclamado pela massa. A precipitação da revolta provocou o recuo de gaúchos, cariocas e mineiros. São Paulo ficou como criança abandonada em noite de chuva e vento. Segundo Alfredo Ellis só dispúnhamos de 6 milhões de cartuchos. Iniciou-se o alistamento de voluntários. Formaram-se, movidos pelo entusiasmo da peleja, vários batalhões, dentre os quais o esportivo comandado pelo grande centroavante Artur Friedenreich. A FIESP mobiliza as indústrias para o mutirão de guerra. Produzem-se  cartuchos, fuzis e granadas. A FIESP cria a milícia industrial para vigiar operários simpáticos a Vargas. Como as redes sociais  em nossos dias, o rádio transformou-se em poderoso instrumento mobilizador. As mulheres da sociedade paulistana aderiram com redobrado ânimo ao furor revolucionário. Dizia uma de suas mensagens que “as lanças da ditadura se quebrarão na couraça de vossos peitos”. As mulheres concentraram esforços em hospitais e oficinas de costura. “Lobos contra lobos”,  conceituou Monteiro Lobato. Nos primeiros dias de eclosão do movimento, os ânimos aceleraram-se. Na noite de 23 de maio de 1932, um grupo de revoltosos resolveu tomar de assalto a sede do Partido Popular Progressista. Os legionários responderam com fogo, fizeram alguns cadáveres (l2 ou 13, segundo alguns depoimentos) e 4 rapazes, transformados em mártires, contribuíram com a letra inicial do nome para a criação dum movimento de resistência, o famoso MMDC , de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Erigiu-se a figura do herói no coração paulistano. A luta dos paulistas foi solitária, porque se fez apesar da omissão  de outros Estados. Nossos batalhões não chegaram a se arrastar por aí como se fora o risível exército de Brancaleone, mas ficamos sem dinheiro e quase maltrapilhos. Por isso, a 14 de julho, Pedro de Toledo criou um bônus de guerra como alternativa à falta de recursos. A campanha “Ouro para o bem de São Paulo” arrecadou 6.000 contos de réis em alianças e outras peças de ouro. Todavia, a sociedade paulista, como um todo, fracionou-se entre aderentes e antagonistas. A classe média estufou o peito e revestiu-se de ímpeto bélico contra Vargas e seu empenho em modernizar o País. Muitos foram os convocados, todavia esses nem sempre lutaram no fronte. Os nomes de dois moços de CTV – Ortega e Josué – não estão anotados nas listas oficiais dos recrutados para a batalha, no entanto tombaram mortos por aí, atirados, ou roídos por alguma doença. O heroísmo faz-se por vias próprias, porém misteriosas. Tão flagrante foi o desequilíbrio no estoque de armas em desfavor dos paulistas, que usamos artifícios como matraca, ou barulho de motor de motocicleta, para simular o som de metralhadora. Construímos bombardas, bazucas, carros lança-chamas e blindados. Só pudemos contar com 9 aviões, os famosos “gaviões de penacho” que deram o melhor de si no enfrentamento dos “vermelhinhos”. Os últimos estampidos ouviram-se em Campinas, no final de setembro. Bertold Klinger apresentou a proposta de rendição. Muitas pessoas, revoltadas, chamaram Klinger de “vilão”. 633 paulistas haviam morrido na batalha. João da Baiana e Donga, dois músicos cariocas, não se engajaram nessa luta surrealista, um pouco como a de Fiume sob o comando de Gabriele D’Annunzio: ficaram por ali, entre praia e boteco, cultivando a vida difícil dos pobres e marcando o ritmo do samba na caixa de fósforos:” Meu Deus, eu ando/com o sapato furado/tenho a mania/de andar engravatado/a minha cama/é um pedaço de esteira/e é uma lata velha/que me serve de cadeira. /Meu Deus, meu Deus …/minha camisa/foi encontrada na praia/e a gravata foi achada/na Ilha de Sapucaia./Meu terno branco/parece casca de alho/foi a deixa de um cadáver/do acidente no trabalho./Meu Deus, meu Deus …/o meu chapéu/foi de um pobre surdo e mudo/as botinas foi (sic!) de um velho/da revolta de Canudos (…) “ Voltamos a Euclides da Cunha e ao atraso congenial.

Documento pungente

À desorganização da economia pela Primeira Guerra Mundial seguiu-se longo período nazifascista (1920-1950), de escala planetária, como expressão de fúria das forças retrógradas contra o avanço socialista. Sirva de exemplo a piada do cachorro caído do caminhão de mudança: à procura de comida e conforto, ele aceita afago, porrete, bigode ou voz grossa. Nesses tristes trinta anos edificou-se a figura do pai totêmico, de acordo com a expressão de Sigmund Freud. Como iremos sobreviver num mundo de plena escassez se não contarmos com a coragem e a sabedoria dum pai extraordinário, venerado e temido, distante e frio, cheio, porém, de promessas de amparo? Notaram o excesso de pais protetores no período? Hitler, Mussolini, Franco, Salazar, Vargas, Perón, Stálin. Qual deles não tinha as mãos tintas de sangue? Obedeça-me ou se queime nas chamas do inferno. Siga-me ou corra os riscos da solidão, da miséria e da loucura. Peito à frente, barriga para trás, acorde cedo, trabalhe, respeite o chefe, abaixe a cabeça ao superior, diga sim, senhor, não revele seu ponto de vista, não critique, o indivíduo é menor que a massa e, só na massa, encontraremos expressão de força, ame os símbolos nacionais mais do que pai e mãe, mate, se for preciso, o espião janta conosco, este é um tempo de partido, tempo de homens partidos, é bom não confiar em ninguém, não seja marica, as mulheres têm cabelos longos e idéias curtas, seja homem, rapaz, poderemos resolver isso lá fora!Embora extemporâneos, netos e bisnetos do pai totêmico estão por aí e não perdem oportunidade para exibir músculos e fala grossa, impávidos colossos.Esse modelo ajusta-se bem à carta de 2 de junho de 1930 que Antônio Ortega, soldado constitucionalista, endereçou, em Espanhol, ao pai residente em Catanduva. Éramos tão pobres nesses anos, que, dias antes da redação da carta, o prefeito Adalberto Bueno Netto promulgou a lei 181 que obrigava proprietários de imóvel a arcar com os custos de rede de esgoto, até então inexistente. Dois anos e meio mais tarde, corpo exumado, o jovem foi transferido para o cemitério Nossa Senhora do Carmo. A carta é um documento lavrado em dor e baixo grau de esperança e – fato importante para os estudos de literatura comparada – ecoa a Carta ao pai, de Franz Kafka.

São Paulo, 2 – 6 – 1930

Saúde e felicidade a todos.

Querido pai: Tendo eu que me apresentar, num dia desses, ao Dr. Juvenal Piza, Diretor da repartição de vigilância e da delegacia de costumes, quero, naturalmente, aproveitar diversas vagas existentes nessas repartições, fazendo a esse venerável senhor proposta para entrar numa delas.

Como, no momento, não tenho a necessária força moral para me aventurar ao que somente se aventuram os protegidos da “sorte”, diante de figura de tão elevado posto, recorro ao meio que me abrirá facilmente a porta do futuro.

Como se trata de coisa que de modo algum o colocará em dificuldade e que, facilmente, você poderá providenciar, sem que, por isso, dilapide seus bens; e que para mim vale tanto como se fosse dinheiro, “ou seja, porque o dinheiro pode ser roubado, mas não isso”; e coisa que pode ser desejada, enquanto você fizer com que espere, rogo-lhe que me envie Carta de fiança.É isto que vale moralmente mais que o dinheiro: 10, 20, 30, 40 ou 50 contos.Naturalmente, nenhuma dessas importâncias representa-se por dinheiro ou custará mais, proporcionalmente, em selos, de acordo com a importância da carta.

Espero que, breve, você me responda, se lhe for possível ou não: em qualquer um dos casos, para mim, você será sempre você.

Seu filho,

Antônio Ortega   

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