Facebook, às vezes um álbum de rosas,noutras ocasiões, o modo de  dar-se a cara para bater

Para Guilherme Gandini

Luiz Roberto Benatti

Se o uso da cannabis se ampliasse em razão da pichação de suas folhas nos muros da cidade, o número de fumantes seria incontável.Picham-se as folhas como quem diz “Vamos queimar juntos umas bolas?”Nunca vi qualquer saudação ao Corínthians em muro alto ou baixo nem a do gay ousado que manifestasse paixão recolhida por Neymar. O muro é pichado de madrugada, de modo rápido,quase sempre como se fosse um espelho em que Narciso conversa consigo mesmo. O pichador parece intuir que o muro não o enlaça numa comunidade. Borram-se os muros porque eles se oferecem como a folha branca de papel para o poeta Mallarmé, quer dizer, a escrita serve para negar à brancura o direito de permanecer alva e intocada. O muro é a folha de rosto dos solitários, mas o Facebook é o lugar da assinatura da face. Com ele, aprendemos que nossa identidade corporal pode ser exibida sem que o gesto contrarie qualquer preceito moral ou religioso diante do qual hesitássemos em fazê-lo. Nossa figura ali estampada poderá ser trocada na próxima semana e, assim por diante, até que encontremos para ela o número de cumprimentos que nos dê a certeza de que nosso exílio chegou ao fim, já que agora ficamos tão bonitos quanto todos os bonitos, mesmo porque descobrimos que nossa estética facial fora dos padrões encontrou na comunidade seus  assemelhados. O Facebook não é uma ágora, mas um agora, gratuito e aberto a todos a qualquer hora. Comunidade virtual? Virtual remete a virtude ou à virtù de Maquiavel e isso na era do PT é moeda rara. Claro que ali você poderá  dizer besteira ou ser cafona, como em qualquer boteco da moda na cidade, todavia, quando a síntese do seu pensamento correr pela janelinha alta à direita, ao lado de seu retrato, outro facebookista, ao interceptar o discurso,entrará no fogo cruzado para dizer o que pensa. Quanto à profusão de rosas, pouco há para se fazer. Tanto as rosas quanto os pingüins de geladeira perderam, pela repetição da imagem, a real capacidade de comunicação, todavia temos de admitir que, nos dias que correm, o espaço da política caracteriza-se pela falência da metáfora que pudesse transportar-nos para além do arco-íris. Dificilmente iremos encontrar  pote de ouro além do Facebook, mas alguém poderá interessar-se pelas balas de coco da patroa.

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