Professor x Neymar

Luiz Roberto Benatti

De Fázzio sai à rua, cartaz à mão, para dizer que um professor, de fato, deveria valer mais que o jogador Neymar. Há duas ou três complicações embutidas no raciocínio: a primeira, evidente, é que ele admite a desvalorização do professor e a segunda é que o mestre (e o País) teria de acordar, pôr-se de pé e sair à luta para reconquistar o antigo trono. Na verdade, o juízo arrevesado encrava-se na questão das pagas, quer dizer, enquanto que ninguém, seja dirigente de clube ou comentarista esportivo, revela  o  salário dum grande jogador, quase todo mundo sabe que o mestre fatura baixo, não viaja para o exterior, não passa pela alfândega com malas abarrotadas de gadgets, não tem carrão, não dorme com uma Ferdinanda em cada porto, não usa cabelo à escovinha, não é ovacionado na classe, não resolve equação de 2º. grau com gol de bicicleta, não é garoto-propaganda da pasta Kolynos. Grande jorgador de futebol entra em greve, ano após ano, em março para, depois de paralisar as aulas por várias semanas, conseguir zero vírgula setenta e cinco por cento de aumento? Sabem os meus diletos leitores de jogador que se afasta da prática esportiva por depressão, enfado, operação de catarata, ou de mãe de torcedor que vai ao campo xingar o jogador perneta que, por ter perdido o pênalti, deixou-lhe o filho deprimido? Em seu tempo, a cidade de Königsberg acertava os ponteiros do relógio matinal pela passagem, a pé, do filósofo e professor Emanuel Kant a caminho da universidade ,para dar aulas. Cem anos mais tarde, os cidadãos de bem, ao cruzar na rua com o professor, tiravam o chapéu e o cumprimentavam. Quando estava no velho Barão, uma vez por ano, professores e alunos disputavam partida de futebol no Feitiço. Se eu fosse o De Fázzio, indagaria nas escolas sobre o que lêem os colegas, que filmes de qualidade têm visto nos últimos anos ou se propuseram  à diretora os caminhos da auto-avaliação. Por menos que você aprecie o modo como o grande jogador se apresenta em campo ou fora dele, pergunto ao De Fázzio se não estaria na hora de o professor aprumar-se com mais elegância, tanto no modo de se vestir quanto  no uso da linguagem? Jogador de futebol usa os pés, professor o bestunto. Coda: professor se preocupa com o jogador e passa a semana elogiando-lhe os feitos, mas o jogador, há muitos anos, esqueceu-se dos velhos mestres.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.