Sigízia, psicopompo e carisma

Luiz Roberto Benatti

Quando era pobre, início da noite de domingo para segunda, Luís Inácio voltou da praia, impressionado com o movimento das marés, aquele movimento de vai e volta das águas do oceano. No calhambeque do amigo, retorno a Sampa, pensou o moço de Garanhuns que, chegasse ele um dia à presidência nacional do sindicato dos metalúrgicos, poria em prática o conceito de sigízia, palavra que ele, boquiaberto, ouviu na praia de  Pitangueiras dum professor de Geografia.Teimoso, furão, esperto como calango, piadista, ele chegou lá e sua vidinha começou a mudar, inclusive com o uso da  prótese do codinome Lula. Lula daqui, Lula de lá, ele corria a fábrica e a rua, o palanque, o auditório, a  universidade. Ao mesmo tempo em que queriam ouvi-lo, os doutores tudo faziam para pôr Marx e Lênine na sua cabeça, mas o que ele adorava ler era Rosinha, minha canoa. Quanto mais os patrões se entrincheiravam  atrás das luas nova e cheia, mais poderes de sizígia tinha o rapaz barbudo e umbigo à mostra. Foi assim até que um alto prelado, lido e bem falante, anunciou em São Bernardo do Campo: “Agora que ele detém o domínio pleno da sigízia, temos de caiá-lo com as tintas do carisma, porque sem ela   não se manifesta o dom da graça e sem a graça ninguém avança mais do que o fizemos até aqui”.  Lula, ex-Luís Inácio, ficou carismático e, embora tivesse tropeçado feio em duas eleições, chegou lá. Brasília, quanta beleza!, saída das mãos do compañero Niemeyer que me ensinou a fumar charutos de Havana. Cidade do futuro, onde ninguém trabalha e todos vivem do erário público. Lula foi ficando, a burra crescendo, Celso Daniel morrendo e o PT, compañeros: belê! Ele bem que tentou prolongar os 8 anos em 12 e, amanhã ou depois, em 16, mas os homens de preto do Judiciário olharam feio para ele, puxaram o freio e ele recuou. Apesar do recuo, não desmanchou o carisma com o qual ungiu a sucessora. Logo nos primeiros dias, viu-se que ele não era a sucessora e que a sucessora não era ele. Saltemos algumas sizígias, até o dia do passe livre, sem o qual jogador perna de pau não marca gol na Europa. A moçada foi gritar na rua que era contra o torresmo e o me. Pode pará, pode pará, berrou Lula. O que falta a vocês, cambada de filhotes de urubu com cruz-credo, é o psicopompo!Silêncio geral na arquibancada, até que um garoto dismilingüido da Favela da Jaqueira invadiu uma livraria na Paulista, roubou o Houaiss e foi ler na esquina, embaixo dum poste da Light. Como os protestantes não tinham perdido o rapaz de vista, formaram um círculo à volta dele, até que ele leu que “condutor” era sinônimo de psicopompo. Lula esfregou as mãos e disse para si mesmo: quem disse que eu não vou voltar um dia?

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