Memórias de uma ex-moça bem-comportada

Luiz Roberto Benatti

1915: a lavoura pegou fogo e o leitão de Natal morreu esturricado.

1910: Batem palmas na porteira distante da casa e minha avó diz à minha mãe para ver o que é que o homem quer. Minha mãe é pequenina e o homem magro e espigado. “Uma caneca d’água pelo amor de Deus.” Minha mãe  volta à casa para dizer à minha avó Amélia que ela não entendeu o que o homem disse. Vai minha avó até a porteira e o homem repete o pedido. De volta, diz minha avó:”Portarlo a una tazza di acqua.”Entre dois dialetos, minha mãe descobre o gosto da necessidade.

1931: Meu pai, chapéu, paletó e gravata, circula pela vila num forde 29 e minha mãe enrubesce.

1943: A velha Tomásia enxuga  as mãos no  avental negro e grita junto à cerca: Nena, Nena, estás viva o muerta?”Com pés de pluma, minha mãe levita para não acordar o menino. Em abril, os judeus resistem em Varsóvia para não ser arrastados para Treblinka.

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