Lições de Homero para vida banal de todos os dias

Luiz Roberto Benatti

Enquanto houver vida inteligente no planeta, Homero continuará a ser lido, razão por que você deveria botar no sexto/cesto arquivo Paulo Coelho e ler os livros que imortalizaram o grego: Ilíada e Odisséia. O primeiro narra com poesia e metáforas inesgotáveis a guerra de Tróia e o segundo relata  o absurdo e prolongado retorno do herói a Ítaca, de onde saíra como rei. A guerra nos entretém porque ela manipula o remédio que nos salva do tédio, há ruídos, corpos são estraçalhados, gritos, atos de puro heroísmo ou covardia, gestos de vingança, a fúria enlouquecida de Aquiles.  Finda a batalha, voltamos para o chinelo, o carteado, a pesca, a vida aborrecida, discussões com a cara metade, filhos agarrados à vontade sem peias, ao adultério capenga.  Por isso, Homero fez com que o deslocamento marítimo pelo curto trajeto durasse 20 anos, cujos episódios parecerão surrealistas aos apressados. Um irlandês meio maluco chamado James Joyce “traduziu” Homero para o mundo contemporâneo e no lugar do mítico  viu pessoas e acontecimentos de Dublim, a banalidade, comer, farrear, ir à latrina. A Penélope de Joyce bota chifres em Bloom/Ulisses. Assim, quase todos nós estaríamos dispostos a jurar em cruz que o casamento foi inventado pelo Ocidente segundo o melhor dos ensinamentos cristãos, com o sexto mandamento de olho nos dândis e nas doidivanas. Não foi por outra razão que Homero encerrou a Odisséia com a revelação  de Ulisses/Odisseu à criada, a mulher e o filho Telêmaco de que ele voltara para o lar e o trono, depois de liquidar os pretendendes à mão de Penélope um a um. Penélope jamais tornou-se eXposa, mas continuou a ser a eSposa de sempre.Como não temos declarado guerra a Catiguá ou Pindorama, não poderíamos a rigor estar em nossa particular  escaramuça  de Tróia, a administração pública. É  ali que trucidamos Pedro ou Maria, gritamos com os subalternos como se fôssemos  general enlouquecido de comédia escrachada,esmurramos a mesa,  traçamos no mapa estratégias que levarão nossos burros a chafurdar na lama do córrego, pedimos ao soldado de confiança que vá até o inimigo vigiar o deslocamento das tropas sem nos dar conta de que, por ato de traição, ele já se bandeara para o outro lado, de olho na minissaia da loira secretária.  A prefeitura oferece aos nossos guerreiros grandes ocasiões para experimentar o quanto somos poderosos, lúcidos, capazes e fenomenais, Rodolfo Valentino na província. Todavia, quando a batalha chega ao fim, depois da aborrecida assinatura do armistício, voltamos para casa e a mesmice. Por isso   é que temos de ler com nossas crianças Homero: quando você troca a eXposa pela ATUALposa o que você quer é encontrar na alcova as desrazões que fazem do general um verdadeiro macho, deitado na cama  e com a bota enlameada. O sexo provoca no corpo envelhecido o ardor das queimaduras do gás mostarda.

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