Pensão Estrela

Luiz Roberto Benatti

No verso do fragmento da certidão de registro de estrangeiro 3177, de Manoel de Oliveira Estrela, português de Leiria, nascido em 9 de abril de 1880 e migrado para CTV, lê-se que “nenhum estrangeiro poderá permanecer por mais de 30 dias em qualquer localidade, sem se apresentar à autoridade competente, para registro (…)” e que “o agricultor ou técnico de indústrias rurais não poderá abandonar a profissão, durante o período de quatro anos consecutivos, contados da data de seu desembarque etc.” Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Enfim, na ditadura Vargas, como noutras ditaduras, fosse você estrangeiro, teria de identificar-se e, depois de o fazer, empregar-se. Se se empregasse, não poderia abandonar o posto de trabalho. Servidão involuntária. Controlavam-se os passos das criaturas, mas não, felizmente, o desenho das nuvens. Como fazê-lo, se estão altas, distantes e, rápido, se desfazem? Onde você estiver, para comer ou beber, terá de dar o melhor ou o pior de si mesmo; com a taquara, trançar um cesto, apanhar anzol e linha, pescar. Manoel, de Leiria, entre a estrela e o sulco cavado no solo onde seus pais, portugueses,  deitavam sementes.

Pe. Albino, Adolpho Gordo & Manoel Estrela procuravam-se no tempo

A lei 1641, de 7 de janeiro de 1907, do Sr. Adolpho Gordo, senador paulista latifundiário, foi modelo de perversão que só iria aproximar-se de decretos parelhos no nazifascismo, tivessem eles sido assinados  por Getúlio Vargas ou   Adolf Hitler. A lei se fez, dentre inúmeros outros motivos, para proibir a prática de lenocínio ou crime cometido contra os costumes; explorasse, fomentasse ou facilitasse a prostituição ou a corrupção. Explorar o trabalho escravo não se constituía para o senador em crime, ao contrário da vagabundagem ou a mendicidade. Veemente, ele escarvou o solo e cuspiu no assoalho do Senado a seguinte pérola de linguagem e pensamento: “É uma medida de profilaxia social”, a que ajuntou esta outra:”A cada qual a sua miséria e a sua canalha”. Por extensão, Gordo debochava de Marx. Retrógrado e petulante. Em 1907, Manoel Estrela ainda não se desenraizara de Portugal, mas, caso estivesse no Brasil, poria de molho o espesso bigode, sem ao menos saber ao certo o sentido de “comprometer a segurança nacional”, já que o que ele queria era alcançar a mais mínima segurança pessoal.

 O mundo dá muitas voltas: pensionista de Estrela (Rua Maranhão, ao lado do número 416. Estrela era avô do Pe.  Synval Januário que, um dia,declinou de ser o substituto do Pe. Albino na Matriz de São Domigos), Pe. Albino fôra enviado para o degredo africano por discordar de atos da monarquia lusitana, enquanto o dono da pensão poderia ter sido deportado para Portugal ou, quem sabe, até mesmo para a África. Tanto as criaturas humanas quanto o mundo dão muitas voltas e  caraminholas.

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