Topografia do crime e do imaginário

Luiz Roberto Benatti

Num dia desses, pessoa de minhas relações, exímia educadora, falava com invejável rapidez e precisão da transmissão e assimilação do conhecimento. Perfeito era o ajuste das partes do discurso, ideal seria a escola resultante dessas teorias, a partir de cuja implantação a criançada iria viver no melhor dos mundos, ou seja, no mundo do improvável. Três semanas depois, verificou-se a matança quíntupla de SP, a qual, se a investigação fincar pé no que concluiu, abriria portas estreitas e janelas meio emperradas para uma discussão sobre família, crime, cinema e imaginário. Comecemos pelo cinema. Em 1921, Chaplin escreveu o roteiro de O garoto, do qual foi produtor, diretor e protagonista. Multidão em escala mundial foi às salas de cinema para rir-se e emocionar-se diante do desenrolar duma história que, nos dias que correm, mentes sofisticadas chamariam de piegas. O papa recomendou o filme que pode ser visto e revisto em cópias baratas vendidas em bancas de jornais e revistas. O enredo fala duma mãe pobre que abandona a criança recém-nascida num carro de luxo, num contraponto muitas vezes explorado por Carlitos. O veículo fora roubado e, quando se deram conta da presença do bebê e a carta de justificativa do gesto cruel da genitora, os bandidos abandonam criança e bilhete, encontrados depois pelo Vagabundo que abriga a criança e, juntos, enquanto o menino arrebentava os vidros das janelas das casas de gente abonada, tornam-se grandes parceiros de malandragem, pois que, logo a seguir, o pai protético aparecia para oferecer serviços de reparo da janela quebrada. Depois duns lances em que um juiz toma a criança do Vagabundo para deixá-la num orfanato, a mãe, enriquecida, reaparece e, num final feliz, os três vão viver na mesma casa confortável.O verdadeiro Socialismo só pode ser utópico, quer dizer, não há lugar para ele no Capitalismo. O cinema, por décadas, foi o lugar do imaginário e o topos em que o operário dava-se conta de como funcionava a máquina de produção de mais-valia do Capitalismo. O cinema era a escola primária, o ginásio e a universidade da classe trabalhadora. Nos dias que correm, no mais das vezes, o cinema é a projeção paranóide do Capital norte-americano, razão por que em seus filmes sobejam berros, tiros, carros arrebentados, fogo, inundação, ataques terroristas. Trata-se dum imaginário esquisito, porque leva para o chão da imanência o pesadelo desconjuntado da sociedade de classes, cujos garotos formam legião. Se a escola do operário nos dias de Chaplin estava na sala de cinema e se o cinema contemporâneo arrebentou os limites daquele imaginário, agora não há mais lugar no cinema para humilhados & ofendidos. Ao atirar contra si mesmo (se isso de fato ocorreu), Marcelo, o novo garoto, ajustou o fotograma de sua mente suicida para uma projeção sem-fim de fade out. O abismo invoca o abismo.

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