As praças e a estação ferroviária

Luiz Roberto Benatti

A Praça da República, bem como a Praça 9 de Julho – Padre Albino, do mesmo modo que a Praça da Sé, SP, por ocasião do inconsistente alarido das Diretas-já, e a praça da Central do Brasil, no RJ, na qual Jango Goulart esboçou as teses socialistas no comício de 13 de março de 1964, não são apenas emblemáticas, mas acima de tudo metonímicas de diferentes sonoridades e visões de mundo e, the last but not the least, metafóricas. Por serem metafóricas, seu verdadeiro sentido estará sempre velado e a tarefa de quem reflete é descobrir-lhe o véu e surpreender-lhe o rosto limpo. Separadas no tempo e no espaço, tais praças sinalizam para possibilidades de arranque e ultrapassagem, mas igualmente de recuo bonapartista. Não se trata de mera curiosidade histórica lembrar que aquelas praças catanduvenses datam dos primeiros anos de formação do município, todavia assinalar a “natureza” sociopolítica desses logradouros. Ponderemos: Catanduva tinha/tem dois lugares (vamos chamá-los assim) antitéticos: a estação ferroviária e a matriz de São Domingos. As estações, aqui e alhures, por muito tempo foram porta de entrada e saída das cidades e, na vida moderna, desempenharam o papel da muralha do castelo medieval: vigiar o estrangeiro, saber quem chegava ou saía, se transportava algum volume misterioso, com quem viajava. O trem servia/serve ao transporte de mercadorias e aos negócios de seus agentes. A igreja serve ao transporte das almas, à domesticação dos instintos, à legalização do conúbio (Na verdade, a loira não é burra, mas insidiosa!). Se a estação vigia o espião, a igreja pune o mau cristão. Ao lado de seus aparatos e ornamentos metafóricos, os dois lugares comunicam-se com os cidadãos por falas metonímicas: no alto de suas torres há um relógio e, se o relógio ferroviário assinala o tempo da produção capitalista, o da igreja lembra ao ocioso que o melhor para o espírito é sacudir a preguiça capital e entregar-se ao negócio (Deus ajuda quem cedo madruga.). Como vêem, toda antítese camufla muito bem as identidades! A polarização estação ferroviária/igreja São Domingos repete-se no contraditório Praça da República/Praça 9 de Julho – Padre Albino. A República, enquanto fato de História, corresponde ao momento político em que a coroa monárquica, corroída por ferrugem, pôs de lado o discurso monomaníaco dos luíses para dar lugar à desconexa algaravia popular. A praça é do povo e o bom cristão ouve e se cala, ou emporcalha a praça. Digamos, para configurar as aproximações e os afastamentos, que, ao dividir, na Praça da Sé, estreito espaço com a igreja, os arautos das diretas não só choveram no molhado, como se mostraram meninos bem comportados e de almas purgadas. Netos de Napoleão III, enfim. Na Central do Brasil, como novo Lênine, Goulart anunciara as teses de março rasgadas em abril pelos ferozes adversários da ultrapassagem. Cínicos, apelidaram a ditadura de revolução. Ora, se a praça, hoje, não é mais a ágora ateniense de reconstrução da democracia nem o lugar do sonho republicano de distribuição do pão com os humilhados e ofendidos nem o local do arranque socialista nem a área em que se enterravam os mortos nas velhas comunidades cristãs (churchyard = cemitério), mas espaço de troca de mercadorias, é porque o mundo, como disse Martin Heidegger, está cada vez mais mundano e mentalmente indigente.

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