Lições de Karamazov

Luiz Roberto Benatti

Esteja onde estiver, você estará consigo mesmo, amigo ou inimigo, dentro ou fora da própria pele, minta ou fale a verdade, engane ou vista o manto dos puros. Para Sigmund Freud, Os irmãos Karamazov é obra descomunal, como Hamlet: nelas se fixam, modelam-se, arquitetam-se as tramas do destino de Édipo e a luta contra o pai. Você o nega hoje, mas amanhã, tendo acordado mais cedo, ele estará no espelho. Você arrebenta o espelho e ele estará, a seu lado, fora do espelho convidando-o para recolher os cacos. O pai entrou em você, amassou-lhe o cérebro, torceu-lhe a língua, deu nós na linguagem, provocou-lhe vômito e ódio. Agora você é o pai, um pai dúplice, desdobrado, envelhecido, exigente, armado de canivete e disposto a decepar-lhe os penduricalhos localizados abaixo da linha do Equador. Ninguém foge ao fantasma do Pai. O falso discurso na câmara ou na rua é sussurrado pelo pai dentro de suas vísceras. Você mente para chegar lá e quando pisar o novo palco renegará o ombro no qual se  apoiou: o Pai matou-lhe a alma. Você urra porque mente e berrará até o fim dos tempos se não mentir: bebê na banheira com um falo-submarino à mão.  

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