Bandeira branca, eu peço paz

Luiz Roberto Benatti

Quando Dalva de Oliveira cantou Bandeira branca, o Brasil alimentava hábitos hoje desconhecidos por quase todos nós. Mudaram o mundo e o Natal. Muito jovem, fui para o RJ, naqueles dias Estado da Guanabara: inscrevi-me no curso de Direito da  Universidade do Estado da Guanabara, prova de Latim sem dicionário, fui aprovado etc., voltei a CTV e comuniquei ao meu pai o fato. Como bom italiano, ele me respondeu: “Você não fez mais do que sua obrigação”. Não,  meu pai não era cruel, ele me dizia o que aprendera com os pais e  avós. A vida era mediada pelo trabalho e o trabalho fazia-se pela maturidade. Agora, pelo Facebook, assisto à postagem da foto da mãe contemporânea que anuncia à comunidade de amigos e familiares a entrada dos filhos numa escola de Engenharia: os moços estão postados diante duma bandeira da escola. A universidade tornou-se fato público e notório. Mãe e filhos sorverão o champanhe cujos eflúvios irão espalhar-se pela casa. Se o governo da Federação não tem projeto para a classe média, ela própria procura por seus caminhos como a formiga vai à busca da folha seca ou da lagarta. Na rua,ergo os olhos para a traseira do carro à frente, onde vejo a família estampada num selo singelo: pai, mãe, três filhos, o cão. No bar, o celular capta a imagem sorridente dos bebericantes e os remete para o mundo: estamos aqui e agora, seremos  imortais enquanto houver em nós sopro de vida, no momento, esquecidos do narcotraficante que anota a grife de nosso casaco e a chapa do carro que papai nos deu pela entrada na universidade. A classe média terá de  ser salva de si mesma, todavia isto só irá ocorrer quando ela jogar  fora o espelho.

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