Proximidade distante

Luiz Roberto Benatti

Você pensa que é de hoje, jura, grita, esperneia.

Estava lá no fundo do labirinto do seu ouvido, preso à cera onde se depositou um  escaravelho de ouro. Todas as desmemórias se parecem e lembram memórias bem cozidas. Todos os enganos, esdrúxulos ou não, são certezas porosas assentadas sobre o lodaçal de Olinda. Olinda jamais existiu porque Nassau colou o que dela havia ao Recife e voltou ensandecido para a Holanda. Aqui tudo é de ontem e o andaime do futuro ainda não foi erguido. Aqui, só três ou quatro malucos de pedra mantêm acesa a dúvida da certeza e não pensam em nada se não que o abacaxi tem uma coroa de espinhos. Estenda a mão para a coisa distante e ela estará próxima, todavia, se você quiser agarrá-la, sentirá no ar o vento frio do amanhecer. Pertolongelongeperto são palavras de nosso léxico falada pelos últimos 3 mil habitantes duma tribo que por aqui passou em 1527. Levo na maleta o que não poderei ser à medida que este trem, trepidante, viaja para Lugar Algum.

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