Lazer & Cultura

Luiz Roberto Benatti

Houve um tempo, em CTV ou noutros lugares, em que a prefeitura parecia não existir, quer dizer, ela estava em seu canto e as criaturas noutro, ocupadas com o trabalho ou a escola. Havia o ferreiro e o padeiro, o médico, o dentista, a costureira, o açougueiro e o barbeiro. Como passei dos 18, sou dum tempo em que nunca, jamais ou em tempo algum, meu pai pensou durante a semana qual seria a minha diversão no fim de semana. A coisa ocorria porque meu pai e somente ele havia pensado que iríamos ao campo de futebol, à pesca ou à casa de meu avô. Por outro lado, a garotada ia para a rua rodar pião, empinar papagaio, brincar de pique. Depois do jantar, meus pais levavam cadeiras para a calçada, o vizinho atravessava a rua com as suas e o papo prolongava-se até às 9 da noite. À tarde, no rádio, ouvíamos Jerônimo, o herói do sertão. Líamos gibis, íamos à praça, assistíamos no velho República às apresentações da orquestra sinfônica, sessão de hipnotismo ou o mágico com sua fabulosa companheira. No Carnaval, todo mundo ia à rua para saracotear.  As cidades cresceram, o poder público experimentou como pôde organizar o lazer, cujo ócio tem de ser pensado não como negócio, todavia como pura distensão e entrega ao nada. Ao ser pensado pelo poder público, o ócio terá de ser contabilizado, quer dizer, passa a ter natureza antitética: descanso e custo quase sempre elevado.Do 64 para cá, a cissão de classes gerou novas frações e divisões, mas a cultura pop eminentemente urbana escorreu da periferia para o centro para entancar-se no supermercado.  O cinema está no shopping onde estão a camiseta, o CD, o brinco, o perfume, o hambúrguer. Embora privado, o espaço do shopping e suas atividades de lazer contribuíram para que a prefeitura, no mais das vezes, ficasse paralisada entre duas escolhas – o efêmero & o permanente. CTV é uma cidade algo rara no cenário estéril do Noroeste do Estado cujas localidades não podem oferecer à comunidade aparelhos de cultura como os nossos: MIS/biblioteca/centro cultural; teatro; Castelinho; zoológico e Estação cultura. Espaços nobres no sentido mais elevado das coisas. A esses, deveríamos acrescentar, no meu modo de entender, o clube de campo e, talvez, o clube Higienópolis, cuja falta de recursos os leva, no momento, à deterioração. Poderíamos imaginar para eles algo como o uso comunitário? E o sítio de uva? O museu da cachaça? Quem dá o mais também oferece o menos. Temos de descobrir onde é que Mozart, hoje, está escondido.

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