Literatura ou vídeo-game?

Luiz Roberto Benatti

Pressurosa, a mãe de filho único pergunta-me sobre o quê fazer com o pimpolho que não se desgruda do vídeo-game, desinteressado de qualquer livro. Na verdade não se trata de “o quê fazer?”, mas de “como fazer?”.Proibir-lhe o uso em determinados horários do jogo eletrônico, dar-lhe uns cascudos? A nova Pedagogia é o inferno nas escolas e na casa. Do ponto de vista da fenomenologia (desculpem-me o palavrão), as coisas funcionam do seguinte modo: tanto o vídeo-game quanto o livro, de formatos até certo ponto semelhantes, oferecem-se ao olhar como página, campo ou tela na qual estão gravadas letras ou imagens. O vídeo-game, como cão e gato, não convive de maneira harmoniosa com as letras impressas e o livro é econômico na impressão de imagens. Para ser decodificada, a palavra pressupõe conhecimento anterior, enquanto que a imagem está aí como dado evidente e “quase natural”: tiros, mortes ou carros incendiados são metáforas rebaixadas da desorganização cultural dos dias que correm. O protagonista enlouquecido do vídeo-game arquiteta um plano para liquidar o adversário, mas ele não se obriga a pensar na transformação moral de si mesmo. Ele é um desenraizado, um outsider. Nesse sentido, o vídeo-game não “ensina”, a não ser que você entenda que a destreza digital seja um passo para diplomar-se em cibernética. O vídeo-game tanto quanto o livro exigem disponibilidade para o convívio solitário com o suporte por um tempo.Se o jogo eletrônico não ensina, o que ensinaria o livro? E por que o livro nos ensina? Numa resposta breve, porque nele há muitas vozes – a do autor, o narrador, o protagonista, o antagonista -, muitas vezes em conflito umas com as outras. No jogo, uma voz única, obsessiva, neurótica, repetitiva, enfadonha. Já leu o russo Anton Chekhov, nosso Machado de Assis das estepes? Vamos refletir um pouco sobre duas ou três frases: “Valoriza-te para mais: os outros irão ocupar-se em baixar o preço”. Por trás da frase, existe um microuniverso estruturado sobre a ética das relações humanas: Checkov não dirá à criança ou ao adulto que ele deverá dar um tiro no rosto do inimigo, mas irá aconselhar-nos a tirar de letra a situação desvantajosa: somos criticados por ter cão e por não ter cão, logo … Outra frase: “A felicidade é uma recompensa para quem não a procura”. Numa época em que quase todo mundo fala em felicidade o tempo todo, ensinemos à criança que o melhor é não preisar dela, não por que queiramos ser infelizes, todavia porque sua busca a qualquer preço vai-nos tornar pessoas obsessivas e insatisfeitas. Mais uma? “Quando temos sede, parece-nos que poderíamos beber o oceano – é a fé; e quando o bebemos, bebemos, de fato, um copo ou dois – é a ciência”. Um pouco de ciência num mundo de absurdos não faz mal a ninguém, principalmente às crianças.  

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