Fins de semana infernais no Jardim dos Coqueiros

Luiz Roberto Benatti

Com o pecúlio de 20 anos em SP, eu e minha mulher compramos um terreno no Jardim dos Coqueiros e edificamos a casa.A casa acha-se um pouco acima do córrego.  Em 1990, o bairro era ermo e ainda se reservava o ar pastoril de zona rural: mugido de bovinos, tatu, irerês, periquitos palradores. Para muitas pessoas, a experiência da chácara é emoção efêmera até que os filhos, adolescentes, começam a queixar-se do incômodo silêncio do bairro.Meu filho se queixava da falta de ruído de caminhão.  A partir desse momento, pai e mãe voltam para o centro e locam a chácara para os fins de semana, primeiro para o churrasco e a música sertaneja audível, depois para convescotes no Carnaval e, nos dias que correm, para a farra  da moçada que, cansada do suco de laranja,  busca sorver tequila, vodca, cerveja, até às 5 da manhã seguinte, quando, trêbados, voltam para suas casas para dormir o sono dos injustos.Os moços são cruéis e sabem disso: é pena que, de vez em quando, o governo não brigue com o vizinho e os convoque para uma guerrilha à moda dos vietcongues.  Ao lado do meu terreno, com postagens no Facebook, gerentes traquejados convidam os interessados para o open-bar. Não há mais inocência na geografia da incultura. Mergulhe de cabeça no meu copo até o último gole. O último encontro reuniu, a 30 reais por cabeça, 120 heróicos freqüentadores que, lá pelas tantas, pela voz do DJ, foram convidados a criar coragem e atirar-se na piscina. Noutras chácaras, a moçada foi vista no gramado como veio ao mundo, sem talco no bumbum e cheiro de álcool. Numa outra, garantiu-nos uma senhora séria, pais contemporâneos deixaram uísque para as filhotas adolescentes e foram pescar na Lagoa dos Patos Desarvorados. Você vai reclamar com quem?Quem conhece os caminhos para a polícia sabe que as coisas se complicam à medida que a intervenção não se fará duma hora para outra e que a ação recomendada deveria iniciar-se pelo BO, depois o encaminhando da queixa ao MP até a decisão final que resultaria em multa pesada. Nas chamadas do Facebook desta semana, lemos que a FATEC  apóia a farra onde eu, minha mulher e filhos não estaremos. Alguém da instituição  sabe desse apoio e teve notícia do desenrolar dessas festinhas à romana? Em resumo: digamos que, contra a vontade dos moradores, os moços queiram divertir-se, distensão conhecida por “ócio”. Pergunto: quem é o dono do “negócio”? Os romanos da decadência reencarnaram em CTV.

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