AS QUATRO ALICES

Sérgio Roxo da Fonseca

            Aplicando-se a regra preconizada por Manuel Bandeira, há muitas Alices no mundo, há tantas que é um não acabar, mais do que as folhas da floresta, mais que as areias do mar, mais do que as estrelas do céu. Estou trocando Maria por Alice.

            Pretendo falar de quatro Alices: uma, a Alice das Maravilhas, a outra a Alice do Claude Chabrol, uma oculta do Eliot e finalmente aquela não mencionada do Borges. Mas, lógico, há outras Alices no mundo e para o Bandeira, a melhor delas foi aquela que ele perdeu. Poderia existir um elo de ligação entre as várias Alices? Talvez haja vários. Vamos a um deles.

            Parece-me que se trata da incompossibilidade da Alice afastar-se da realidade por mais espantosa que lhe pareça. Há uma última fuga, diz Chabrol que marca o fim de tudo.

            Alice não encontra meios para submeter o real a seus desejos. Ou em outras palavras, a realidade é imutável de sorte que pedra é pedra e pau é pau, não sendo possível substituir um dos elementos da proposição pelo outro ou por qualquer que seja um outro. A pedra será sempre pedra e o pau sempre será pau pelo resto dos anos do universo. Ainda quando  Alice assim não queira.

            A primeira Alice, a de Carroll, pretendia ir ao roseiral e não conseguia passar pelo buraco da parede porque seu corpo era muito maior do que ele. Chora e chora muito e seu corpo diminui tanto que enseja a possibilidade de atravessar o obstáculo e encontrar o roseiral, objeto desejado. No entanto, o seu corpo ficou tão pequeno que foi cercado pelas suas lágrimas que formaram um lago oceânico. Tem de nadar para aproximar-se da fresta da parede. Nada, nada e nada, não alcança o roseiral.

O argumento precedeu os versos de Eliot, em Quatro Quartetos, ao distinguir que o passado e o futuro são águas que se derramam no presente. Tudo é irremediavelmente presente por mais que Alice queira retornar ao passado ou mergulhar no futuro. Nem adianta chorar e nem adianta nadar. Fora do presente é o nada.

Eis Eliot falando do roseiral.

            “Burnt Norton

                        “Embora a razão seja comum a todos, cada um procede como se tivesse um pensamento próprio”.

                        “O caminho que sobe e o caminho que desce são um único caminho”.

I

            O tempo presente e o tempo passado

            Estão ambos talvez presentes no tempo futuro

            E o tempo futuro contido no tempo passado.

Se todo tempo é eternamente presente

Todo tempo é irredimível.

O que poderia ter sido é uma abstração

Que permanece, perpétua possibilidade,

Num mundo apenas de especulação.

O que poderia ter sido e o que foi

Convergem para um só fim, que é sempre presente.

Ecoam passos na memória

Ao longo dos corredores que não percorremos

Em direção à porta que jamais abrimos

Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras

Em tua lembrança.

                                    Mas com que fim

Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas.

Não sei.

                                    Outros ecos

Se aninham no jardim. Seguiremos?

Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os

Na curva do caminho. Pela primeira porta,

Aberta ao nosso mundo primeiro, aceitaremos

A trapaça do tordo? Em nosso mundo primeiro.

Lá estavam eles, dignificados e invisíveis,

Movendo-se imponderáveis sobre as folhas mortas,

No calor d outono, através do ar vibrante,

E o pássaro cantou, em resposta

À inaudita música oculta na folhagem.

E um radiante olhar impressentido trespassou o espaço, porque as rosas

Tinham aparência de flores contempladas.

Lá estavam eles, como nossos hóspedes, acolhidos e acolhedores,

Assim, caminhamos, lado a lado, em solene postura,

Ao longo da alameda deserta, rumo à cerca de buxos,

Para mergulhar os olhos no tanque agora seco.

Seco o tanque, concreto seco, calcinados bordos,

E o tanque inundado pela água da luz solar,

E os lótus se erguiam, docemente, docemente,

A superfície flamejou no coração da luz,

E eles atrás de nós, refletidos no tanque.

Passou então uma nuvem, e o tanque esvaziou.

Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de crianças,

Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso.

Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano

Não pode suportar tanta realidade.

O tempo passado e o tempo futuro,

O que poderia ter sido e o que foi,

Convergem para um só fim, que é sempre presente.

II

Alho e safiras na lama

Acolhem o eixo da roda.

O trêmulo fio de sangue

Canta sob envelhecidas

Cicatrizes apaziguando

Guerras há muito esquecidas.

A dança ao longo da artéria

A circulação da linfa

Simbolizadas rodopiam

No torvelinho dos astros

Remontam ao verão das árvores

Movemo-nos mais acima

Das árvores que se movem

Na luz da folha imaginada

E sobre o solo encharcado

Embaixo, ouvimos o sabujo

E o javali perseguirem

Sua forma como outrora

Mas irmanados entre os astros.

No imóvel ponto do mundo que gira. Nem só carne, nem só carne.

Nem de nem para; no imóvel ponto, onde a dança é que move,

Mas nem pausa nem movimento. E não se chame a isto fixidez,

Pois passado e futuro aí se enlaçam. Nem ida nem vinda,

Nem ascensão nem queda. Exceto por esse ponto, o imóvel ponto,

Não haveria dança, e tudo é apenas dança.

Só posso dizer que estivemos ali, mas não sei onde,

Nem quanto perdurou este momento, pois seria situá-lo no tempo.

A liberdade interior do desejo prático,

A fuga da ação e do sofrimento, a fuga da compulsão

Interior e exterior, ainda que cingidas

Pela graça dos sentidos, uma luz branca imóvel e movediça,

Erhebung estática, concentração

Sem exclusão, ao mesmo tempo um novo mundo

E outro antigo agora decifrado, compreendido

Na íntegra de seu êxtase parcial,

Na resolução de seu parcial horror.

Contudo, o encadeamento de passado e futuro

Entretecidos na fragilidade do corpo mutável

Preserva o homem do céu e da condenação

A que nenhuma carne poderia suportar.

                        O tempo passado e o tempo futuro

Não admitem senão uma escassa consciência.

Ser consciente é estar fora do tempo

Mas somente no tempo é que o momento no roseiral,

O momento sob o caramanchão batido pela chuva,

O momento na igreja cruzada pelos ventos ao cair da bruma,

Podem ser lembrados, envoltos em passado e futuro.

Somente através do tempo é o tempo conquistado”.

Borges, em “Otras Inquisições”, caminha por essas sendas: “Nuestro destino (a diferencia del infierno de Swedenborg y del infierno de la mitologia tibetana) no es espantoso por irreal; es espantoso porque é irreversible y de hierro. El tempo es la substancia de que estoy hecho. El tempo es um rio que me arrebata, pero yo soy el rio; es um tigre que me destroza, pero yo soy el tigre; es um fuego que me consume, pero yo soy el fuego. El mundo, desgraciadamente, es real; yo desgraciadamente, soy Borges”.

É desnecessário dizer que Eliot, muito embora não cite Carroll, nunca escondeu a fonte de sua inspiração. Ao que sei, Borges nem mesmo fez referência a isso. Muito embora haja quem afirme que suas luzes, cronologicamente brilharam antes em outras páginas que não são dele. E Claude Chabrol?

O diretor francês, extraordinário mestre da denominada “nouvelle vague”, teve sua obra marcada pelas cenas maravilhosamente (maravilha?) tomadas transmitindo fotografias inesquecíveis. Um de seus filmes menos conhecido chama-se Alice.

A Alice de Chabrol, nas primeiras cenas do filme, comunica a seu esposo que não viverá mais com ele, nem mesmo por um instante e abandona a casa à noite sob forte temporal, rompendo qualquer resistência.

Sofre um acidente, já na zona rural. O vidro do automóvel estilhaça. A Alice enxerga um castelo nas proximidades e pede socorro. O castelão a acolhe e coloca o mordomo para atendê-la que lhe serve refeição e indica seus aposentos. Ao acordar pela manhã, Alice não encontra ninguém, muito embora haja sinais de vida. Várias vezes tenta afastar-se do castelo. Inutilmente.

Num determinado momento, o castelão ressurge e sempre gentil noticia que a brincadeira está acabando e que ela poderá no dia seguinte ir embora.

Ironicamente, o castelão indica uma porta, esclarecendo que por ela as almas voltam para o mundo vindo do inferno. Mas, se Alice quiser, pode sair por ela para alcançar a sua realidade. O roseiral?

Na cena seguinte, vê-se Alice, de camisola, atravessando a porta das almas e a câmera toma vida, afastando-se do castelo, voltando para o local do acidente onde se vê o corpo da Alice morta.

O filme e os seus elos são inesquecíveis. Tem também um segundo título “A Última Viagem”. Chabrol insinua que todo o filme não passa da atividade pensante de uma Alice agonizante que busca pelas suas últimas fantasias, porta para o fim de seu incontornável presente, pela sua própria morte.

Não conseguiria acrescentar mais nada. A não ser que as quatro Alices, para mim, refletem a imagem inacabada dos gênios que a esboçaram, antes mesmo de sua última viagem.

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